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Famílias beneficiárias do programa Gás do Povo têm manifestado descontentamento com a cobrança de valores extras para a retirada de botijões em estabelecimentos credenciados. Relatos de moradores de localidades como Ribeirão das Neves (MG), Padre Bernardo (GO), Flores (PE) e Timon (MA) indicam que é preciso complementar o valor do gás, sob o argumento de que o subsídio não cobre o preço integral do produto.
Anteriormente, o auxílio era concedido em dinheiro diretamente às famílias a cada dois meses, por meio do Auxílio Gás. Atualmente, o benefício é disponibilizado via voucher, que deve ser trocado por um botijão de gás em revendas autorizadas.
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) esclarece que a legislação vigente veda qualquer tipo de cobrança adicional. A pasta enfatiza que “a recarga do botijão será gratuita para todos os beneficiários”, permitindo taxas apenas para serviços complementares, como entrega ou instalação.
À época da alteração do programa, representantes do setor já alertavam que a fixação de um valor único poderia ocasionar pressões nos preços em certas regiões, especialmente onde o custo do Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) é mais elevado. José Luiz Rocha, presidente da Associação Brasileira dos Revendedores de GLP (Abragás), aponta que a metodologia governamental para definir o valor do benefício está, em alguns estados, abaixo do preço praticado pelas revendas.
Rocha afirma que a Abragás havia alertado o governo sobre a necessidade de os valores acompanharem, no mínimo, os preços regionais divulgados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). “Em alguns estados, o valor ficou abaixo da realidade, o que desmotivou parte dos revendedores a participar do projeto”, explica.
No Amazonas, a diferença pode chegar a aproximadamente R$ 30 por botijão de 13 quilos, enquanto em São Paulo, estima-se em quase R$ 16. O presidente da Abragás adverte que a falta de atualização dos valores em linha com a dinâmica do mercado pode levar à saída de empresas do programa. “Quando há reajuste pelas distribuidoras, as revendas repassam de imediato. Se o governo não acompanhar, muitos podem se descredenciar para não operar no prejuízo.”
Falta de revendas credenciadas em diversos municípios
Dados da Caixa Econômica Federal, atualizados em 18 de março, revelam que beneficiários em 1.290 municípios brasileiros ainda não contam com revendas cadastradas para a retirada do botijão do Gás do Povo. Isso ocorre mesmo com todos os municípios do país já possuindo famílias aptas a receber os vouchers, conforme informações do MDS.
Apesar disso, uma das regras do programa estabelece que distribuidoras com mais de 10% de participação no estado devem assegurar o acesso ao botijão. Uma moradora do sertão pernambucano, que optou por não se identificar, relatou à equipe de reportagem a necessidade de percorrer 60 km até o município mais próximo com revenda autorizada.
O governo, por sua vez, assegura que o modelo garante o atendimento em todo o território nacional, inclusive em localidades sem pontos de venda próprios, e que novos estabelecimentos são continuamente incorporados. A administração federal informa que o programa já opera em mais de 20 mil revendas credenciadas, o que representa um terço do setor.
Um comunicado governamental detalha que, na ausência de revendas credenciadas em um município, as distribuidoras de GLP com participação igual ou superior a 10% no estado devem “garantir a oferta do benefício”, sem especificar os mecanismos para tal garantia. Caso ainda não haja locais para retirada, a orientação é que “o beneficiário deverá ir até o município mais próximo”.
O Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás) nega a existência de desabastecimento nos municípios. Segundo Sergio Bandeira de Mello, presidente da entidade, “eventuais localidades ainda sem revendas aderidas estão sendo atendidas por meio de pontos alternativos e rotas logísticas criadas em conjunto pelo governo e pelo setor privado”.
Os estados com a maior proporção de municípios sem revendedoras registradas no sistema da Caixa são Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Tocantins. Belém (AL), cidade homônima à capital paraense, destaca-se como o município com o maior número de beneficiários (27.423) sem nenhuma revendedora cadastrada.
Em termos absolutos, a concentração de revendedoras é maior em grandes centros urbanos, como São Paulo (424), Salvador (241) e Brasília (238). Contudo, em análise relativa, entre as dez cidades com mais beneficiários, Brasília (DF) apresenta a maior proporção de pessoas por empresa, seguida por Belo Horizonte (MG), Belém (PA) e Salvador (BA).
Conflito no Oriente Médio pode impactar preços do GLP?
O cenário geopolítico internacional é outro fator com potencial para influenciar os preços. Embora o GLP ainda não tenha sido diretamente afetado, a prolongação de conflitos, como a guerra no Irã, pode gerar consequências. O estreito de Hormuz, rota por onde transita entre 20% e 30% do petróleo mundial, já teve sua logística prejudicada.
“Pode haver aumento [de preços] se o conflito durar mais tempo”, alerta Rocha, da Abragás, mencionando problemas logísticos e a escassez de vasilhames como questões já percebidas no mercado.
Sergio Bandeira de Mello, do Sindigás, afirma que ainda não é possível quantificar os impactos concretos de tais eventos.
Atualmente, o preço médio do botijão de gás no Brasil é de R$ 109,91, conforme o levantamento mais recente da ANP, realizado no último sábado (21), indicando uma relativa estabilidade nas últimas semanas.
Como acessar o Gás do Povo?
Para verificar a elegibilidade e acessar o Gás do Povo, o beneficiário pode utilizar o aplicativo “Meu Social – Gás do Povo”, que permite consultar o vale e localizar as revendas credenciadas.
A retirada do botijão é realizada diretamente na revenda, mediante validação com o cartão do Bolsa Família, cartão de débito da Caixa ou CPF, com um código enviado ao celular. Para aqueles sem acesso à internet, é possível utilizar os cartões físicos ou informar o CPF diretamente na maquininha das revendas.
Os requisitos para ter direito ao benefício incluem estar inscrito no Cadastro Único, possuir renda familiar de até meio salário mínimo por pessoa e ter os dados atualizados nos últimos dois anos. O programa prioriza, em especial, beneficiários do Bolsa Família.
A implementação do programa ocorreu de forma gradual, com a primeira fase iniciada em novembro de 2025 em dez capitais. Em janeiro de 2026, foi expandido para 17 cidades, incluindo Brasília, Rio de Janeiro e Manaus. A partir de fevereiro, sua abrangência tornou-se nacional.
Com a mais recente expansão, iniciada em março, o programa atinge aproximadamente 15 milhões de famílias. Somente em março, 9,4 milhões de famílias foram contempladas, com um investimento de R$ 957,2 milhões. A política visa principalmente famílias de baixa renda registradas no Cadastro Único e, em sua maioria, lares chefiados por mulheres.
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