A internação social reteve ao menos 217 pacientes em leitos de hospitais públicos do Distrito Federal após a liberação médica entre 2021 e 2025, estendendo a permanência por até nove meses devido à falta de moradia, abandono familiar ou ausência de cuidadores.

O fenômeno ocorre quando a pessoa já concluiu o tratamento clínico, mas permanece no hospital por extrema vulnerabilidade social. O perfil dos afetados engloba majoritariamente idosos dependentes, pessoas com deficiência e indivíduos em situação de rua sem rede de apoio.

A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) registrou um salto significativo no tempo médio dessa permanência. Em 2021, os pacientes ficavam cerca de 90 dias internados após a alta clínica. Já em 2024, esse período saltou para 270 dias, somando aproximadamente nove meses de ocupação indevida do leito.

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Casos no Entorno e a busca por acolhimento

A problemática também afeta municípios do Entorno do DF. Um exemplo é o de uma adolescente de 16 anos com transtorno do espectro autista (TEA) que completou um ano residindo no Hospital Municipal do Jardim Ingá, em Luziânia, após ser abandonada e perder a avó que a cuidava.

Embora a jovem tenha construído laços afetivos com os profissionais da unidade, o hospital não possui estrutura para moradia permanente. Segundo a administração do local, a paciente está em processo de transferência para uma instituição de acolhimento adequada.

Diferença entre alta médica e alta social

A assistente social e especialista em política social Erci Ribeiro explica que a liberação hospitalar envolve duas etapas distintas. Enquanto a alta médica atende critérios exclusivamente biomédicos, a alta social depende de condições psicossociais que garantam a continuidade do bem-estar e do tratamento no domicílio.

Segundo a especialista, o serviço social realiza estudos detalhados quando identifica a ausência de suporte familiar ou financeiro. Nesses cenários, é elaborado um parecer justificando a permanência temporária da pessoa no leito enquanto equipes tentam localizar parentes ou reestruturar a rede de cuidados do paciente.

A permanência prolongada em ambiente hospitalar, no entanto, gera impactos emocionais severos. A assistente social ressalta que o hospital é associado a riscos e sofrimentos, e o isolamento prolongado dificulta a reintegração comunitária e a recuperação de vínculos sociais do indivíduo.

Ações para mitigar o problema no DF

Para enfrentar a situação, a Secretaria de Saúde implantou o Guia Intersetorial para Integração dos Serviços de Saúde e Proteção Social. A medida cria fluxos com a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF) para organizar o encaminhamento e acolhimento seguro de idosos, crianças, gestantes e pessoas em situação de rua.

*Nota: Nome fictício utilizado para preservar a identidade da adolescente, em conformidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

FONTE/CRÉDITOS: Fernanda Cavalcante