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Belo Horizonte – Aos 25 anos, o ex-zagueiro profissional Ítalo Augusto Souza Araújo decidiu expor sua história para alertar sobre os perigos do vício em apostas. Ele relata como a dependência transformou sua vida, levando-o a perder a carreira no futebol, dinheiro e a confiança da família, mas que encontrou um caminho para a recuperação, transformando sua experiência em um poderoso alerta para outros.
Aviso: esta reportagem aborda relatos de ideação suicida e pode ser sensível para alguns leitores.
O que começou como uma forma de ganhar dinheiro rápido evoluiu para uma dependência avassaladora. Ítalo confessa ter roubado familiares e se endividado com agiotas, chegando a considerar o suicídio em seu momento mais sombrio. O ambiente que prometia sucesso e ostentação o levou ao fundo do poço.
“No futebol, a gente vive num mundo de ego. Se você tem 10, eu quero ter 11”, resume, explicando a mentalidade que o impulsionou.
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Conhecido como “Animal” nos gramados, Ítalo iniciou sua trajetória no futebol aos 6 anos. Como zagueiro, passou por clubes renomados como Cruzeiro, América, Goiás, Paraná, Vila Nova e Capital, colecionando títulos e participando de jogos importantes.
O vício em apostas, diagnosticado como transtorno do jogo ou ludopatia, resultou na perda de aproximadamente R$ 100 mil, impactou seu desempenho em campo e culminou no abandono de sua carreira promissora.
Atualmente, Ítalo compartilha sua história para demonstrar que a recuperação, embora árdua, é plenamente possível. Longe dos gramados, ele atua na área de comunicação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG) e está reconstruindo sua vida, afastado das apostas. “Eu creio que hoje, sim, sei o que é viver novamente. Estou voltando a ser quem eu era.”
Como começou
Aos 21 anos, durante a pandemia de Covid-19, Ítalo começou a apostar por diversão, com valores pequenos. O que era um passatempo logo se transformou em um problema, e ele chegou a apresentar o vício ao seu melhor amigo.
Em uma virada de ano, ele descreve como ensinava ao amigo as “técnicas” para ganhar dinheiro com apostas. “Antes do avião decolar, a gente fez R$ 1 mil. Até o avião pousar, eu já tinha perdido R$ 3 mil”, relembra, detalhando o ciclo vicioso de tentar recuperar perdas.
A lembrança mais dolorosa para Ítalo é ter introduzido as apostas ao amigo, que mais tarde enfrentaria um câncer e seria hospitalizado.
“Eu ficava no hospital com ele, jogando. Ele tentava conversar comigo, mas eu tava jogando. Então, tipo assim, eu não prestava atenção nele”, relata, lembrando que a conversa com a reportagem ocorreu exatamente um ano e oito meses após a morte do amigo. “Depois que ele faleceu é que eu me afundei.”
Precisa de ajuda? Saiba onde procurar
- O vício em apostas é reconhecido como um transtorno de saúde mental com tratamento disponível.
- No SUS, procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
- Jogadores Anônimos (JA) oferece reuniões gratuitas em diversas cidades. Em Belo Horizonte, os encontros ocorrem às terças e quintas-feiras, das 19h às 21h15, na Sede da Abraço (Av. do Contorno, 4.777, Funcionários). Contato via WhatsApp: (31) 99206-2501.
- Em caso de sofrimento emocional intenso ou ideação suicida, procure um serviço de saúde ou o CVV (Centro de Valorização da Vida) para apoio 24 horas.
Em campo, pensando em outro jogo
Com o agravamento da ludopatia, o foco de Ítalo migrou dos gramados para as apostas. Os treinos passaram a ser vistos como obstáculos, e ele começou a simular lesões para se afastar das atividades e conferir os resultados das apostas no celular.
“Já teve vez de eu falar que machuquei no meio do treino para o fisioterapeuta me tirar e eu ir para o vestiário mexer no celular para ver como estava o jogo. Também já aconteceu de a gente estar jogando uma semifinal, parar para beber água, e eu perguntar para o gandula quanto estava outro jogo, que não tinha nada a ver com o meu.”
Fora dos campos, sua loja de calçados também sucumbiu ao vício. O lucro das vendas era reinvestido em apostas antes mesmo do pagamento de fornecedores. Até mesmo os equipamentos esportivos recebidos de patrocinadores eram vendidos antes da entrega.
“Aprendi a roubar dentro da minha própria casa”
O salário como jogador profissional permitia que Ítalo mascarasse seu problema financeiro. Parte do dinheiro ia para a mãe, enquanto o restante alimentava um ciclo de apostas, empréstimos e dívidas com agiotas. Quando os recursos se tornaram insuficientes, ele cruzou limites éticos e morais.
“Eu aprendi a roubar dentro da minha própria casa, eu roubei meus pais. Tinha um cofre que era do meu falecido vô… Eu aprendi no YouTube como se abre um cofre. Abri o cofre, manquei tudo, perdi rápido também o dinheiro”, confessou.
Quando a família descobriu
Movimentando quantias expressivas em transferências bancárias, Ítalo chegou ao ponto de pedir R$ 10 à mãe para cobrir a fatura do cartão de crédito.
“As dívidas começaram a embolar. Eu nunca fui de pedir dinheiro para minha mãe, porque, por causa do futebol, eu sempre recebia e tinha o meu dinheiro. Aí falei com ela: Mãe, preciso de R$ 10 para pagar a fatura do cartão. Minha mãe falou: ‘R$ 10?’”, relatou, mencionando o controle financeiro da mãe. Desconfiada, ela verificou o extrato bancário e descobriu a extensão do problema.
A descoberta abalou profundamente a família. A mãe de Ítalo, que sofre de lúpus, adoeceu em decorrência da tristeza. Ele, no entanto, descreve-se como anestesiado pelo vício, incapaz de reagir. “Eu via a minha mãe chorar e não conseguia esboçar uma reação. Eu queria chorar, queria dar um abraço nela, mas aquela barreira que o vício cria… você nunca pode demonstrar fraqueza.”
O ápice da crise ocorreu após perder R$ 5 mil logo ao acordar. Desesperado, ele dirigiu sem destino pela BR, com a intenção de cometer suicídio. “Eu peguei a BR, botei 160 km/h. Eu já estava decidido. Falei: ‘O primeiro caminhão que passar, eu jogo o carro embaixo’. Foi a primeira coisa que eu pensei. Não passou nenhum caminhão”, recorda. Ao retornar para casa, a mãe expressou uma profunda angústia, abraçando-o e chorando intensamente.
Aprendendo a viver de novo
A virada na história de Ítalo começou com uma estratégia de sua mãe. Ela o convidou para ir ao shopping, sob o pretexto de comprar roupas novas, algo que ele evitava para economizar e apostar.
Desconfiado de que poderia ser uma armadilha policial devido aos furtos em casa, Ítalo aceitou o convite. O destino, no entanto, era uma reunião dos Jogadores Anônimos, no bairro Serra, em Belo Horizonte, em maio do ano passado.
“Eu cheguei e quando eu olhei assim… parecia que, sabe quando você vai na igreja e parece que o pastor tá falando um negócio para você? O eu falo que quando eu tava vendo o pessoal falando assim, eu falava: ‘Fiz a mesma coisa que esse cara, velho’. Como que esse cara de 40 anos tá fazendo a mesma coisa que eu?”, compartilhou, descrevendo o local como sua “igreja”.
Ele passou a frequentar o grupo duas vezes por semana, onde encontrou apoio e se conectou com pessoas que compartilhavam experiências semelhantes. Desde então, sua vida mudou drasticamente.
Ítalo afirma ter recuperado a capacidade de estar presente, atento às conversas e compromissos. Ele e seus colegas redescobriram a alegria nas coisas simples. “Com R$ 20 a gente sai, come um pastel, toma um refri e aproveita… A gente tá voltando a ser o que a gente era.” Agora, ele não vive mais com o medo de encontrar agiotas pelas ruas.
Ele sorri ao dizer: “Hoje eu consigo chegar em casa e sentar no sofá para conversar com a minha mãe e com o meu pai.”
Um dia de cada vez
Atualmente, Ítalo faz uso de medicação para controlar o transtorno e se considera em recuperação, com nove meses de sobriedade. A jornada incluiu uma recaída, mas seu retorno à sobriedade foi fortalecido pela experiência.
Além do suporte dos novos amigos, adotou medidas rigorosas para manter a recuperação: bloqueou permanentemente seu CPF em casas de apostas pelo Gov.br, afastou-se do futebol para evitar gatilhos e entrega o celular à mãe em momentos de vulnerabilidade. Sua mãe também assumiu o controle de suas finanças.
Copa do Mundo como gatilho
Para Ítalo, a Copa do Mundo representa um gatilho poderoso, intensificado pela publicidade de apostas que, em sua opinião, ignora o sofrimento dos viciados.
“Hoje em dia tá extraordinário. [….] Milhões de pessoas assistindo à Copa, milhões de pessoas recaindo na Copa, milhões de pessoas se matando, roubando, apostando, pegando dinheiro dos outros, roubando a própria família, acabando com a própria vida (…). A pessoa que divulga jogo nunca teve um ente querido […] que é amigo, não é meu irmão, de jogo.”
Ítalo relata ter acompanhado poucos jogos da Copa, afirmando: “Teve a Copa agora. Se eu te falar que vi dois jogos, foi muito”. No entanto, ele não demonstra arrependimento, sentindo-se feliz com o novo rumo de sua vida.
Reconstruindo a confiança
Ao lado dos pais, Ítalo participa de um projeto social em uma comunidade do bairro Goiânia, região Nordeste de BH, onde vive há oito anos. A iniciativa oferece atividades como aulas de jiu-jítsu para crianças e adolescentes.
Apesar das dificuldades, ele recusou uma proposta de R$ 5 mil para divulgar casas de apostas no projeto. “Como eu vou falar de algo que destruiu a minha vida e tantas famílias? Hoje eu quero usar a minha história para ajudar outras pessoas”, declara.
Com um sorriso, Ítalo conta que, recentemente, utilizou o cartão de crédito — agora sob o controle da mãe — para comprar um presente inédito para ela: um buquê de girassóis.
“Eu perguntei: ‘Mãe, a senhora já ganhou um buquê de girassóis?’. Ela falou: ‘Não, filho, mas acho bonito’. Eu falei: ‘Então tá bom’. Hoje minha mãe deixa eu usar o cartão, mas é ela quem controla. Antes de comprar, fiquei rezando para ela ter liberado o limite.” O gesto representou uma mudança significativa em sua relação com o dinheiro e com o que realmente valoriza na vida.
Mais do que o presente, a ação simbolizou a reconstrução da confiança entre mãe e filho. “Em 25 anos de vida, eu nunca vi um sorriso da minha mãe tão verdadeiro”, expressou, emocionado.
Se identificou com a história? Procure ajuda
A dependência em jogos de apostas é classificada como um transtorno de saúde mental e possui tratamento. Pessoas com dificuldades em controlar o vício podem buscar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), através das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Existem também grupos de apoio como os Jogadores Anônimos, com reuniões gratuitas em diversas cidades. Em Belo Horizonte, os encontros ocorrem na Sede da Abraço (Av. do Contorno, 4.777, Funcionários), às terças e quintas-feiras, das 19h às 21h15. O contato via WhatsApp é: (31) 99206-2501.
Em situações de sofrimento emocional intenso ou ideação suicida, a orientação é buscar ajuda imediata em um serviço de saúde ou contatar o Centro de Valorização da Vida (CVV) para apoio emocional 24 horas.
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