A pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta um novo e significativo ponto de tensão esta semana, com o avanço das investigações da Polícia Federal (PF) que miram seu principal aliado político, Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL. As apurações, que envolvem supostos desvios de emendas e associação criminosa, adicionam uma camada de complexidade e desgaste à corrida eleitoral de Flávio Bolsonaro.

Após uma série de episódios que já haviam gerado atrito em sua pré-campanha, como o “caso Master”, o embate público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), a crise tarifária com os Estados Unidos e as acusações do jogador Richarlison sobre uma mansão no Rio de Janeiro, o foco agora se desloca para as ações da Polícia Federal contra o dirigente do Partido Liberal.

Além de Valdemar Costa Neto, Márcio Canella (União Brasil), pré-candidato ao Senado e principal aliado do senador Flávio Bolsonaro em Belford Roxo, também foi alvo de uma operação da PF nesta semana. A ação investiga um complexo esquema de lavagem de dinheiro, estimado em R$ 7,6 bilhões, com ramificações em postos de combustíveis da região.

Publicidade
Publicidade

Leia Também:

A investigação da Polícia Federal contra Valdemar Costa Neto

De acordo com a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), Valdemar Costa Neto está sendo investigado pelos crimes de desvio de dinheiro de emendas parlamentares e associação criminosa.

A decisão, datada de segunda-feira (6/7) e divulgada na sexta-feira (10/7), faz parte dos desdobramentos da “Operação Transparência” e de um inquérito que apura um suposto esquema de apropriação indevida de recursos públicos através de emendas.

As investigações da Polícia Federal indicam que Valdemar, mesmo sem ocupar um cargo parlamentar, exercia influência clandestina na destinação de verbas de emendas.

Os investigadores apontam que o presidente do PL contava com o apoio de servidores da Câmara dos Deputados para direcionar recursos públicos conforme seus interesses.

A PF estima que Valdemar Costa Neto tenha atuado no desvio de pelo menos 21 emendas parlamentares, totalizando cerca de R$ 119 milhões em empenhos ou pagamentos.

Na sua decisão, o ministro Flávio Dino determinou a suspensão desses R$ 119 milhões em emendas e detalhou os indícios coletados sobre a atuação de Valdemar e de três servidores da Câmara, sendo dois deles lotados na Liderança do PL.

O impacto da investigação na pré-campanha

Valdemar Costa Neto é um dos pilares da família Bolsonaro e peça-chave na direção do PL, partido ao qual Flávio Bolsonaro e outros membros da família (como o ex-presidente Jair Bolsonaro, Michelle, Eduardo, Carlos e Jair Renan) são filiados.

Embora o senador Flávio Bolsonaro não seja diretamente alvo da investigação, o avanço das apurações contra Valdemar Costa Neto inevitavelmente afeta sua pré-campanha. Ambos compartilham eventos, reuniões e o mesmo projeto político-eleitoral dentro do PL.

Para Bianca Silvino, especialista em comunicação política e eleitoral, a investigação contra Valdemar, por si só, não inviabiliza a candidatura, mas se soma a um histórico de crises já enfrentadas pelo pré-candidato nos últimos meses.

“A investigação contra Valdemar se soma a um acúmulo de crises que já inclui o caso Vorcaro, que possui certo apelo popular, a ruptura com Michelle Bolsonaro, a declaração de Paulo Figueiredo contra o voto feminino, a operação da Polícia Federal contra Jair Bolsonaro (com busca por armas em sua casa, em julho de 2026) e a dependência da decisão dos Estados Unidos sobre a aplicação de tarifas ao Brasil no âmbito da investigação conduzida pela USTR”, detalhou Silvino.

Segundo a especialista, um dos principais objetivos da candidatura de Flávio Bolsonaro é manter viva a pauta política do bolsonarismo sob uma nova liderança. Isso torna cada novo episódio de desgaste ainda mais relevante para a disputa eleitoral.

Estratégia de ‘distanciamento silencioso’

Bianca Silvino sugere que o movimento mais estratégico para Flávio Bolsonaro seria adotar um “distanciamento silencioso” da crise. Isso significa não romper publicamente com Valdemar Costa Neto, mas também evitar uma defesa explícita.

A razão é prática: o senador depende da estrutura do PL para sua campanha, incluindo o acesso a recursos do fundo eleitoral, tempo de televisão e a articulação partidária nos estados. Um confronto direto com o presidente do partido limitaria severamente esses recursos essenciais.

Do ponto de vista da comunicação, a especialista explica que a estratégia ideal é desviar o foco do debate. Quanto mais a pré-campanha se concentrar nas crises envolvendo Valdemar, Daniel Vorcaro ou Michelle Bolsonaro, mais desafiador será construir uma narrativa própria e positiva.

Manifestações de Flávio Bolsonaro e Valdemar Costa Neto

Em sua manifestação pública, Flávio Bolsonaro defendeu Valdemar Costa Neto, afirmando que o presidente do PL “saberá dar todas as respostas aos pontos levantados”. O senador também declarou ser “natural que ele atue politicamente junto a deputados federais, especialmente os do próprio PL”.

Flávio Bolsonaro ainda insinuou que a Polícia Federal estaria agindo de forma seletiva, com o objetivo de constranger adversários políticos do governo federal.

Por sua vez, a defesa de Valdemar Costa Neto negou qualquer irregularidade, sustentando que a investigação se baseia em “premissas frágeis” e busca “criminalizar a atividade política”.

“A defesa de Valdemar Costa Neto recebe com surpresa a decisão do ministro Flávio Dino que decretou medidas cautelares em seu desfavor. Com o devido respeito, a decisão parte de premissas frágeis, inferências subjetivas e de uma indevida criminalização da atividade político-partidária”, declarou a defesa.

Apesar de todas essas crises que cercam o nome do senador, as pesquisas eleitorais atuais indicam que nenhum outro nome da direita conseguiu capitalizar politicamente de forma tão expressiva quanto ele. Esse cenário o mantém como a principal referência para o eleitorado conservador.

FONTE/CRÉDITOS: Álvaro Luiz