O Ministério Público de São Paulo (MPSP) revelou, nesta terça-feira (21/7), que pelo menos três coronéis da Polícia Militar do estado são mencionados em uma investigação crucial. O inquérito apura uma complexa estrutura financeira utilizada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e outras organizações criminosas para ocultar patrimônio, com desdobramentos da Operação Janus visando operadores do esquema.

A representação que fundamentou os mandados de busca e prisão detalha a suposta proximidade de investigados-chave com figuras proeminentes da PM. Entre eles, destaca-se o coronel José Augusto Coutinho, ex-comandante geral da corporação, que foi exonerado em abril por suspeitas de envolvimento com a maior facção do país, conforme noticiado pelo Metrópoles.

Outro oficial mencionado é o coronel Pereira Martins, identificado como diretor de ensino da Polícia Militar. A investigação também faz referência a um terceiro coronel, conhecido apenas como "Patrício", cujo nome completo não foi divulgado.

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Em áudios cruciais transcritos pela equipe de investigação, Cleber Azevedo dos Santos, um dos operadores financeiros com suposta ligação ao PCC, fornece detalhes sobre sua relação com a alta cúpula da Polícia Militar. Nessas conversas, Eduardo Américo Coelho, funcionário de Cleber, chega a se referir a um dos oficiais como "coronel Cabeção".

Em um trecho de diálogo sem data especificada, Cleber afirma: "Fala pra ele que é o coronel Pereira Martins, diretor de ensino. Coronel Pereira Martins e o Coronel Coutinho, que está na Rota hoje, que é da Rota, do Choque, ele comanda tudo: Rota, Choque… que é amigo do Robson, amigo do coronel".

Ele complementa a descrição, dizendo: "Tinha o ‘pica’ hoje que está na Rota e no Choque… é o coronel de tudo, é o comandante de tudo. Não coronel de tudo, comandante de tudo".

Eduardo responde, com um tom de humor: "Vou falar para ele aqui, porque falar coronel Cabeção, né? (risos) Sei nem o nome dele, só conheço como cabeção… Eu falei, vou perguntar aqui… Obrigado, Clebão".

Como evidência, os promotores anexaram ao relatório uma imagem que mostra o coronel Pereira Martins ao lado de Cleber Azevedo dos Santos, aparentemente em uma festa. Na fotografia, o oficial sorri enquanto o investigado segura uma garrafa e um copo de cerveja.

Diálogos adicionais revelam que Cleber Azevedo dos Santos também forneceu a Amjad Ahmad, outro indivíduo apontado como operador financeiro da facção, informações sobre pagamentos destinados a policiais. Em abril de 2022, Cleber questionou: "Chefão, estou precisando de dinheiro para pagar a polícia e não tenho. Vc tem como mandar o nosso saldo por favor?".

Uma planilha datada de dezembro de 2019, enviada por uma colaboradora identificada como 'Ellen' a Cleber Azevedo, contém o registro explícito de um pagamento de R$ 1 mil ao Coronel Patrício. Segundo relatórios financeiros do MPSP, esse valor "demonstra a injeção de recursos em espécie no esquema".

Para os promotores, a série de pagamentos mapeados e a notável proximidade com oficiais de comando não são meras coincidências, mas sim indícios de um canal estruturado de influência. É importante ressaltar que os membros da Polícia Militar mencionados não foram alvos da operação deflagrada nesta terça-feira, nem foram formalmente denunciados ou acusados no âmbito deste caso.

Detalhes da Operação Janus

A Operação Janus tem como foco a investigação da atuação de operadores financeiros que beneficiam diretamente a facção criminosa. Os indivíduos visados são suspeitos de movimentar grandes volumes de recursos, converter dinheiro em espécie para transferências bancárias e participar ativamente da ocultação, circulação e disponibilização de valores atribuídos ao PCC.

As autoridades indicam que os investigados teriam orquestrado diversas operações, incluindo a entrega de numerário em espécie, a realização de transferências bancárias, o uso de empresas e contas de terceiros, e a movimentação de recursos em prol de integrantes e colaboradores da facção.

No total, a operação resultou no cumprimento de 18 mandados de prisão preventiva e 18 mandados de busca e apreensão. Estas ordens foram expedidas pela Vara Estadual de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, Direitos e Valores. Entre os alvos estão:

  • Cléber Azevedo dos Santos
  • Robson Martins de Souza
  • Antonio Carlos Ubaldo Junior
  • Paulo Rogério Silva
  • Odair Alves da Silveira Filho
  • Leonardo Meirelles (procurado)
  • Marlon Antonio Fontana
  • Bruno Ramos Fernandes
  • Meire Bomfim da Silva Poza
  • Fernanda Esteves Silva Lopes
  • Danillo Vinicius da Silva Rosario
  • André de Souza Haddad
  • Antonio Carlos Sampaio
  • Alexandre Viriato da Silva
  • Raphael Flores Rodriguez
  • Amjad Ahmad
  • Eduardo Américo Coelho
  • Marcelo de Morais Oliveira
FONTE/CRÉDITOS: Renan Porto