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O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública na Justiça Federal solicitando a suspensão imediata do programa Tolerância Zero, implementado pela Prefeitura do Rio de Janeiro. A iniciativa, que visa regulamentar o comércio ambulante nas praias da zona sul da cidade, como Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon, teve início nesta semana e já resultou em apreensão de mercadorias e manifestações de trabalhadores.
Na ação, o MPF requer que a União e o município desenvolvam um planejamento abrangente para a gestão das praias. Este plano deve equilibrar o ordenamento urbano, o combate ao crime organizado e a salvaguarda dos direitos fundamentais dos trabalhadores ambulantes.
O procurador regional adjunto dos Direitos do Cidadão, Julio Araujo, argumenta na petição que a prefeitura estabeleceu uma política de fiscalização contínua sem a devida observância das legislações federais que regem a gestão desses espaços públicos.
De acordo com o MPF, o programa foi concebido sem um diálogo prévio com a União, que detém a titularidade das praias, sem a participação da sociedade civil e sem prever medidas de apoio aos milhares de trabalhadores que dependem do comércio ambulante para sua subsistência.
O documento enfatiza que o município não realizou o Termo de Adesão à Gestão de Praias (TAGP), nem elaborou o Plano de Gestão Integrada, ambos previstos no Projeto Orla e considerados cruciais para intervenções dessa natureza.
O MPF sustenta que, embora o combate ao crime organizado e a coibição da exploração ilegal do espaço público sejam medidas necessárias, elas não justificam a adoção de ações que afetam indiscriminadamente trabalhadores que exercem atividades lícitas e aguardam há décadas por políticas públicas que os reconheçam e incluam no planejamento urbano.
Na petição, Julio Araujo reitera que o programa prevê apreensões generalizadas de mercadorias e restrições severas ao comércio ambulante, sem que o município tenha implementado políticas públicas de regularização para a categoria.
A procuradoria destaca que o resultado é a imposição de severas restrições ao direito ao trabalho, afetando majoritariamente uma população composta por pessoas negras, migrantes, refugiadas e em situação de vulnerabilidade social, cuja subsistência depende dessa atividade.
O MPF reconhece a importância de combater organizações criminosas e a exploração ilegal do espaço público. Contudo, ressalta que esses objetivos não autorizam a adoção de medidas que tratem toda uma categoria profissional como suspeita, nem isentam o Estado do dever de criar políticas públicas que garantam condições dignas de trabalho.
“O combate ao crime deve ser direcionado aos responsáveis pelas atividades ilícitas, e não utilizado para justificar restrições generalizadas ao exercício de uma atividade profissional reconhecida pela legislação”, defende o MPF.
Tolerância Zero: o programa em questão
O programa Tolerância Zero teve seu início na manhã de quinta-feira (16), marcado pela apreensão de mercadorias e por protestos dos ambulantes. Uma manifestação ocorreu na orla de Copacabana, estendendo-se até o Leme.
O principal objetivo declarado da operação é combater a exploração ilegal do espaço público por grupos criminosos organizados.
“Vender produto de origem ilegal ou alugar equipamento com origem criminosa é crime. O recado é para que, a partir da data do início dessa operação, essas pessoas não procurem ocupar esses espaços ilegalmente, porque a tolerância vai ser zero. Quando você não tem legalização, você não pode desempenhar nenhuma atividade econômica no espaço público”, declarou o prefeito Eduardo Cavaliere.
A operação mobilizou 320 agentes da Guarda Municipal, com apoio da Polícia Militar, divididos em dois turnos para o patrulhamento da zona sul. O programa se baseia em ocupação territorial contínua, patrulhamento ostensivo e fiscalização integrada, com o auxílio de tecnologias de monitoramento.
“Além da permanência territorial, vamos ter diversas ações de inteligência com a Polícia Civil e com a Polícia Militar. Somando Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon, nós já identificamos mais de mil pontos de venda explorados ilegalmente”, informou a prefeitura.
“Teremos fiscalizações diárias com patrulhamento ostensivo, pontos com controle de acesso, apreensões de mercadorias irregulares e combate aos depósitos clandestinos”, explicou o secretário municipal de Ordem Pública, Marcus Belchior.
A Agência Brasil buscou contato com a prefeitura do Rio de Janeiro e aguarda manifestações.
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