A primeira-dama da Paraíba, Camila Mariz Ribeiro, marcou um momento crucial nesta sexta-feira (10) ao revelar publicamente sua história como órfã de feminicídio, um trauma pessoal que agora impulsiona uma importante política pública. Sua vivência inspirou a sanção de uma lei pelo governador Lucas Ribeiro, seu esposo, que expande o programa estadual ‘Paraíba que Acolhe’, garantindo amparo financeiro, psicossocial e educacional a crianças e jovens que perderam suas mães para esse crime brutal.

Diante de plateias que esperavam discursos protocolares, a advogada e primeira-dama rompeu o silêncio de quase três décadas com uma confissão impactante: “Quando eu tinha apenas 10 anos, o meu pai matou a minha mãe. E essa é a primeira vez, 26 anos depois, que eu me apresento dessa forma.”

Essa dolorosa memória, compartilhada por Camila em uma palestra, ganhou relevância nacional com a sanção da nova legislação. A caneta do Estado agora alcança uma realidade que a própria primeira-dama experimentou na solidão da infância, transformando sua tragédia pessoal em um manifesto potente contra a violência de gênero.

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Maturidade aos 10 anos

Em um auditório atento, Camila relembrou os detalhes do crime que moldou sua infância no interior paraibano. Aos dez anos, ela carregava o peso da maturidade precoce ao tentar proteger sua mãe: “Minha mãe estava se divorciando do meu pai a pedido meu, porque eu não aguentava mais vê-la sofrer”.

O relato se torna ainda mais angustiante quando a advogada expõe a frieza do assassinato. O crime não foi um ato impulsivo, mas sim planejado meticulosamente, com o pai monitorando horários e escolhendo o momento exato para o ataque. Ele foi julgado, e a alegação de insanidade mental pela defesa não se sustentou diante da premeditação evidente.

Para a menina de dez anos, a consequência foi o abandono imediato. “Naquele dia, antes que aquela sexta-feira que parecia comum terminasse, eu enterrei o meu pai e a minha mãe. Minha família se desfez, eu fiquei órfã. E eu me senti abandonada, eu sou filha única”, confessou. A lembrança das “marcas de sangue no quarto da minha mãe até hoje” ainda ecoa em sua memória.

Com a precisão de sua formação jurídica e a dor de quem viveu a ausência, Camila criticou o que considera o maior cúmplice do feminicídio: a conivência social e o isolamento. “Foi esse silêncio que impediu que a vida da minha mãe fosse poupada. Foi por pelo não falar, pelo não tocar no assunto, que a vida de Sílvia não pôde ser preservada.”

Ela ressaltou que “afinal, só eu sabia o que passava dentro da minha casa, só eu presenciava aquilo que acontecia e que não foi um fato isolado, mas o resultado de uma prática de muitos anos”.

O relato alcançou seu ponto mais dramático ao compartilhar o sofrimento da geração que precisou lidar com os fragmentos daquela infância interrompida: “Se você acha que para mim foi difícil, imagine pra minha avó, que teve que segurar o corpo da filha quando nada mais podia ser feito”.

Da dor pessoal à política de Estado

O trágico caso de Sílvia Mariz Fernandes, ocorrido no final dos anos 1990, reflete as alarmantes estatísticas de feminicídio no Brasil. A própria primeira-dama trouxe dados que revelam que 1.492 brasileiras perderam a vida em apenas um ano, vítimas de homens que as assassinaram deliberadamente.

O posicionamento de Camila Mariz e a ação do governo da Paraíba neste dia 10 representam um marco para o cenário político e social brasileiro. Ao transformar seu trauma, que a afastou de eventos sociais na juventude, em motor para ações concretas, ela confronta diretamente a omissão coletiva. Uma das principais frentes é o programa estadual “Antes que Aconteça”, que visa combater a violência em sua origem.

Essa iniciativa estadual está alinhada com uma vitória legislativa nacional: o projeto “Antes que Aconteça” (PL 6.674/2025) é de autoria da senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), mãe do governador Lucas Ribeiro e sogra de Camila. Sancionada como a Lei nº 15.398 em abril de 2026, a proposta instituiu uma política pública nacional que integra educação, saúde e segurança para a prevenção do feminicídio, criando uma sinergia de propósitos na própria família da primeira-dama.

Ao sancionar a nova lei estadual de amparo aos órfãos, o governador Lucas Ribeiro fez questão de enfatizar a influência da vivência familiar nessa decisão: “Conhecendo essa realidade de perto, enviamos à Assembleia Legislativa essa alteração na lei, que foi aprovada e agora sancionamos. Não podemos permitir que crianças e adolescentes fiquem sem assistência e sem o apoio do Estado em um momento de tanta dor. Ao mesmo tempo, seguimos fortalecendo nossas ações permanentes de enfrentamento à violência contra a mulher”.

Ao lado do marido, Camila reforçou o impacto da medida com a autoridade de quem compreende o significado do dia seguinte à tragédia: “Sei que nenhuma lei é capaz de apagar essa dor ou suprir essa ausência. Mas também sei que o acolhimento e a presença do Estado fazem a diferença na vida de quem fica. Essas crianças terão apoio para permanecer na escola, cuidar da saúde e contar com um auxílio financeiro para reconstruir sua história com mais dignidade e proteção”.

A frase que antes encerrava suas palestras agora ganha a força de uma realidade prática no estado: “Ninguém quer se meter em briga de marido e mulher. A grande verdade é essa. Mas para a gente construir o futuro que a gente deseja, a gente precisa tomar uma atitude. A violência um dia calou minha mãe para sempre, mas é por causa desse silêncio onde a dor encontrou o propósito que eu estou aqui”, conclama.

A história da primeira-dama da Paraíba serve como um alerta que transcende o Nordeste e ecoa em todo o país: o feminicídio não escolhe classe social, não poupa infâncias e só prospera onde o silêncio prevalece. Ao romper o seu próprio silêncio e transformar sua dor em amparo legal para os órfãos de hoje, Camila Mariz convoca o Brasil a seguir seu exemplo. Antes que a próxima mãe seja calada.

FONTE/CRÉDITOS: Glaucio teixeira