O Projeto EcoShark da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) revelou, no litoral fluminense, a detecção do antidepressivo sertralina no cérebro de tubarões-martelo, um achado que acende um alerta sobre a crescente contaminação dos oceanos por resíduos farmacêuticos e seus potenciais impactos em espécies marinhas.

A bióloga Mariana Alonso, coordenadora da investigação, ressalta que este é o primeiro registro dessa natureza no Brasil e figura entre os poucos documentados globalmente. A descoberta reforça a preocupação com a poluição marinha por fármacos e seus efeitos adversos em espécies ameaçadas de extinção.

Embora os resultados ainda aguardem a revisão por pares, a professora Alonso informou que o artigo científico será submetido para publicação em uma revista especializada até o final do mês.

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Metodologia: amostragem e análise dos animais

A pesquisa envolveu a análise de 20 espécimes de tubarões-martelo, incluindo as espécies Sphyrna lewini (tubarão-martelo-recortado) e Sphyrna zygaena (tubarão-martelo-liso). Estes animais foram capturados incidentalmente por pescadores colaboradores em diversas localidades do Rio de Janeiro, como Copacabana, Barra da Tijuca, Recreio e Guaratiba.

Diversos tecidos e órgãos foram submetidos a exames, como fígado, músculo, brânquias, cérebro e as ampolas de Lorenzini, estruturas sensoriais cruciais na cabeça dos tubarões. Todo o processo, desde a coleta até a interpretação dos dados, estendeu-se por aproximadamente três anos.

"Geralmente, o fígado é o órgão predominante para a detecção de contaminantes. Contudo, neste estudo, a sertralina foi identificada quase que exclusivamente no cérebro, um fato que nos despertou grande interesse", explicou Mariana Alonso.

A presença da sertralina no cérebro

A bióloga confirmou que a sertralina foi encontrada na maioria dos tubarões examinados. Em alguns espécimes, a ausência de detecção do antidepressivo pode ser atribuída a limitações no tamanho das amostras ou na sensibilidade dos equipamentos empregados.

Os pesquisadores optaram por não revelar o número exato de animais com a substância detectada, uma vez que o artigo científico está em fase de submissão e os dados detalhados serão divulgados somente após a revisão por pares.

A localização da sertralina no cérebro é particularmente preocupante, pois é nesse órgão que o medicamento atua em seres humanos. No entanto, Alonso enfatiza que, até o momento, não há comprovação de que os tubarões tenham manifestado alterações comportamentais ou fisiológicas devido a essa contaminação.

"Identificar o contaminante foi o ponto de partida. Agora, nosso objetivo é compreender se a substância interfere nos níveis de serotonina dos tubarões e se tal interferência pode induzir mudanças em seu comportamento", pontuou a pesquisadora.

Potenciais efeitos e as próximas etapas da pesquisa

Estudos prévios com peixes-zebra, uma espécie comum em pesquisas laboratoriais, já demonstraram que a exposição à sertralina pode causar alterações como natação mais lenta e dificuldades de aprendizagem. Ainda é incerto se efeitos análogos podem ser observados nos tubarões.

A próxima fase da pesquisa visa justamente aprofundar essa questão. Os cientistas planejam expandir o número de animais estudados para determinar se há variações nos níveis de contaminação entre filhotes, juvenis e adultos, além de investigar a possibilidade de transferência da substância da mãe para os filhotes durante a gestação.

Espécies ameaçadas e o impacto ambiental da contaminação

As duas espécies de tubarões-martelo analisadas na pesquisa estão classificadas como ameaçadas de extinção. O Sphyrna zygaena (tubarão-martelo-liso) é considerado vulnerável, enquanto o Sphyrna lewini (tubarão-martelo-recortado) encontra-se em estado criticamente ameaçado, um dos mais altos níveis de risco de desaparecimento.

"Os tubarões são frequentemente vistos como sentinelas dos oceanos. A detecção dessa substância neles indica que a contaminação já perpassou toda a cadeia alimentar marinha", salientou Alonso.

A sertralina pode ingressar no organismo dos tubarões por duas vias principais: através da água, quando resíduos de esgoto são lançados no mar, ou por meio da alimentação, ao consumirem presas que já estejam contaminadas.

Contaminantes emergentes e o alerta ambiental

A pesquisadora destaca que a questão transcende a mera falta de coleta e tratamento de esgoto, um problema comum em certas áreas do Rio de Janeiro. Mesmo as estações de tratamento convencionais não são eficazes na remoção completa de resíduos farmacêuticos, classificados como contaminantes emergentes.

Além da sertralina, o grupo de pesquisa já havia detectado outros contaminantes emergentes em tubarões e golfinhos em investigações anteriores, incluindo filtros solares, inseticidas, parabenos e resíduos industriais. A pesquisadora alerta que a interação dessas substâncias pode amplificar seus efeitos nos organismos marinhos.

Alonso observa que a transposição de evidências científicas para políticas públicas é um processo moroso. "Nós nos esforçamos para apresentar essas informações aos formuladores de políticas, mas é um caminho lento. Geralmente, são necessários múltiplos estudos que comprovem efeitos tóxicos para que um composto seja finalmente restringido", explica.

Reflexão final dos pesquisadores

Para a pesquisadora, a descoberta sublinha de forma contundente como os contaminantes presentes em nosso dia a dia inevitavelmente alcançam o ambiente marinho. "Nosso banho não desaparece no ralo. Ele, de alguma forma, chega ao tubarão", conclui.

FONTE/CRÉDITOS: Fernando Henrique - Estágio DM