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O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia que os Estados Unidos (EUA) só devem retomar as negociações comerciais com o Brasil, que incluem a recente imposição de um tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, após a eleição presidencial deste ano. A medida, que entra em vigor na próxima quarta-feira (22/7), reflete a percepção de interlocutores de que a gestão de Donald Trump não demonstra disposição para o diálogo antes do pleito.
Auxiliares próximos ao presidente brasileiro, ouvidos pelo Metrópoles, indicam que a atual administração norte-americana considera desvantajoso avançar em conversas com um governo que não cede às suas demandas, especialmente a menos de três meses da eleição que definirá o próximo presidente até 2030.
Conforme revelado pelo Metrópoles, Washington havia solicitado ao Brasil a implementação de restrições a investimentos estrangeiros no setor de minerais críticos e terras raras, visando especificamente atores “extra-hemisféricos”, o que, nas entrelinhas das negociações, era uma clara alusão à China.
Esta solicitação foi apresentada no início do ano, durante encontros de alto nível entre as equipes dos dois países para discutir as relações comerciais bilaterais. Contudo, o Brasil recusou a proposta, considerando-a inadequada e contrária aos seus interesses.
No que tange aos minerais críticos e terras raras, o presidente Lula defende uma política de universalidade de investimentos, sem privilégios para parceiros específicos. Além disso, o governo brasileiro prioriza o refino desses recursos em território nacional, buscando impulsionar a indústria e fortalecer a economia. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China.
As autoridades norte-americanas também pleitearam a abertura completa do setor químico, a eliminação de tarifas sobre bens industriais e uma maior facilidade de acesso ao mercado automotivo, entre outras exigências. O governo brasileiro rejeitou essas propostas, alegando potenciais prejuízos a segmentos da indústria nacional.
Mesmo com a iminência da entrada em vigor do tarifaço, a estratégia do Executivo brasileiro é focar na ampliação da lista de exceções, que já abrange mais de 2 mil categorias de produtos. No entanto, a gestão Lula não vislumbra avanços significativos nesse diálogo com os EUA no curto prazo.
Influência de Marco Rubio nas relações bilaterais
Em um cenário de possível vitória do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas eleições, a relação com o governo norte-americano é percebida como já bem encaminhada, indicando uma preferência por um alinhamento político.
No início de junho, após um encontro com Trump na Casa Branca, Flávio Bolsonaro endereçou uma carta ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, manifestando sua “preparação” para disponibilizar sua equipe de transição “imediatamente”, caso vencesse o pleito. Rubio, por sua vez, agradeceu a “generosa oferta”.
Apesar de membros do governo norte-americano afirmarem publicamente a manutenção dos canais de diálogo com o Brasil, fontes indicam que as tratativas só devem progredir após as eleições. A manifestação de Rubio, após a confirmação da tarifa de 25% contra o Brasil, é citada como exemplo dessa postura.
Em uma publicação nas redes sociais, Marco Rubio declarou que o Brasil não negociou de “boa-fé” com os EUA sobre as tarifas. O secretário afirmou ainda que as políticas econômicas de Lula seriam prejudiciais tanto para americanos quanto para brasileiros, acusando o presidente de colocar “seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”.
Essa declaração provocou forte irritação no governo brasileiro. Integrantes da gestão interpretaram a manifestação como uma tática para beneficiar Flávio Bolsonaro, sendo amplamente divulgada por ele e seus aliados para reforçar a narrativa de que Lula seria o responsável pelas tarifas.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou as declarações como “inaceitáveis e ofensivas”, criticando a forma “grosseira e arrogante” com que Rubio atacou o presidente Lula.
O Brasil também avalia que há uma considerável influência de uma vertente mais ideológica do Departamento de Estado dos EUA, liderada por Marco Rubio, nas decisões de retaliação ao país. A gestão Lula argumenta que a taxação possui um caráter político e ideológico, desprovido de uma base técnica sólida.
Detalhes do tarifaço contra produtos brasileiros
Na noite de quarta-feira (15/7), os EUA anunciaram a imposição de uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros. Esta medida foi resultado de uma investigação do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre práticas comerciais do Brasil e entrará em vigor a partir de 22 de julho.
Após a conclusão da investigação, o governo brasileiro buscou negociar com representantes americanos, mas o diálogo não resultou na reversão das taxas.
O governo do Brasil condenou publicamente a imposição das tarifas, classificando a medida como desproporcional e inaceitável.
A gestão Lula pretende acionar a Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomar a discussão no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Apesar da tarifa geral, o documento oficial da taxação inclui uma lista detalhada de isenções. Entre os produtos que não serão taxados, destacam-se café, mel orgânico, açaí, carne bovina, laranja e terras-raras.
Por outro lado, itens como etanol, máquinas agrícolas, calçados, vestuário, diversos produtos químicos e papel estão entre os que sofrerão a taxação.
A relação pragmática entre Lula e Trump
O governo brasileiro tem agido com cautela em relação às manifestações públicas do presidente Lula sobre o tema. A diplomacia entende que uma resposta pública de Lula seria avaliada caso houvesse uma declaração direta do líder norte-americano.
Em agendas no Rio de Janeiro na sexta-feira (17/7), Lula afirmou que aguardaria um posicionamento direto de Trump antes de comentar o tarifaço. Contudo, declarou sua intenção de travar uma “guerra da narrativa e da verdade” sobre o assunto, afirmando que Trump “vai ter que aprender a fazer guerra” com a “arma da palavra”.
Atualmente, não há previsão de contato direto entre os dois chefes de Estado, seja por iniciativa brasileira ou norte-americana. No entanto, essa possibilidade não é descartada, caso seja considerada estratégica.
A relação entre Lula e Trump, portanto, deve manter-se “pragmática” e “correta”, conforme a avaliação de auxiliares do governo brasileiro.
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