Após meses de uma interlocução cada vez mais inviável, a primeira-ministra Giorgia Meloni e o ex-presidente Donald Trump oficializam uma ruptura pública, marcando um ponto de inflexão na estratégia externa da Itália. A intenção de Meloni de servir como ponte entre Trump e líderes europeus foi frustrada por divergências de interesses entre Itália e Estados Unidos, provocações do americano e a crescente insatisfação do eleitorado italiano.

Esta situação não apenas invalida as aspirações da premiê de manter uma relação privilegiada com Washington, mas também expõe um enfraquecimento notável da política externa italiana. A crise atual sinaliza uma reorientação diplomática, com Roma buscando estabilidade em um cenário global volátil.

Para os próximos meses, a Itália demonstra uma clara intenção de fortalecer laços com nações de média potência, que compartilham o interesse em mitigar a instabilidade global. Essa mudança de foco reflete a necessidade de diversificar parcerias e reduzir a dependência de alianças que se mostraram instáveis.

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Com as eleições parlamentares de 2027 se aproximando, espera-se que Meloni adote um tom mais assertivo, ao menos retoricamente, em relação à União Europeia. A figura de Trump, antes um aliado ideológico, parece ser um capítulo a ser superado em seus planos de permanência no poder.

Da aproximação ideológica ao afastamento

A aliança ideológica entre Meloni e Trump, centrada em temas como imigração e a chamada “cultura woke”, precedeu a ascensão da italiana ao poder. Em 2019, quando seu partido ainda era incipiente, Meloni marcou presença na CPAC (Conferência da Ação Política Conservadora), um evento que teve Trump como figura central.

Quando Trump foi reeleito para a Casa Branca em novembro de 2024, Meloni já celebrava dois anos de um governo estável, algo raro na política italiana. Suas escolhas pragmáticas no cenário internacional, aliadas a uma postura interna mais rígida, a consolidavam como uma líder forte, com boa relação com a presidente do Conselho Europeu, Ursula von der Leyen.

Em janeiro de 2025, Meloni foi a única líder europeia a comparecer à cerimônia de posse de Trump. Em abril do mesmo ano, foi recebida na Casa Branca, onde recebeu elogios por seu “trabalho fantástico” como primeira-ministra, sendo descrita como “uma das verdadeiras líderes mundiais”.

Contudo, o entusiasmo inicial logo cedeu lugar a divergências em questões como tarifas comerciais e gastos com defesa. As tensões, que vinham crescendo discretamente, explodiram no início deste ano. O ataque de Israel e EUA ao Irã, em fevereiro, intensificou o mal-estar, prejudicando a Itália com a alta dos preços de energia.

Meloni se distanciou da iniciativa militar, enquanto Trump pressionava os aliados da OTAN por colaboração. A Itália, por sua vez, negou permissão para que aviões americanos utilizassem uma base na Sicília, um claro sinal de descontentamento.

Choque político e desgaste interno

Em meio ao conflito, o papa Leão 14, do Vaticano, fazia apelos diários pela paz. Contudo, o sumo pontífice se tornou alvo de ataques sem precedentes por parte de Trump em abril. Para a primeira-ministra italiana, tais declarações foram inaceitáveis, tornando o choque com Trump inegável.

Leo Goretti, especialista em política externa italiana e vice-reitor da Rome Business School, aponta que o recuo de Meloni em relação a Trump foi também influenciado pela derrota em um referendo sobre questões judiciárias, ocorrido semanas após a ação no Irã.

“O resultado do referendo foi interpretado como uma manifestação de dissenso de parte do eleitorado em relação a uma líder vista como muito próxima de Trump”, afirma Goretti. “Meloni precisou se distanciar, e sabemos que o presidente dos EUA não aprecia ser contrariado.”

A contrariedade evoluiu para insultos públicos. Em junho, Trump acusou Meloni de ter implorado por uma foto ao seu lado no G7 da França, uma história que ela desmentiu nas redes sociais. Antes de uma reunião da OTAN, ele insinuou que precisava se proteger da “perseguição” da italiana.

Em 8 de julho, Meloni declarou: “Não me arrependo de nada” sobre seu “investimento político” com Trump, justificando que o fez por “convicção na unidade do Ocidente”.

Semanas antes, a oposição, apesar de demonstrar solidariedade, criticou a “estratégia fracassada de subalternidade” a Trump. Elly Schlein, líder do Partido Democrático, afirmou: “Foram muitos erros de política externa deste governo”.

Itália busca novos parceiros internacionais

“Com a eleição de Trump, a política externa do governo italiano tornou-se muito opaca. Encontraram-se na situação paradoxal de ter na Casa Branca uma figura de referência ideológica, mas que na prática toma iniciativas que só prejudicam a Itália”, analisa Goretti.

O país, segundo o especialista, necessita de uma arquitetura multilateral robusta, uma relação de segurança sólida com os EUA e uma integração europeia forte — todos temas nos quais Trump atua em direção contrária. “Desde a eleição de Trump, Meloni manteve um perfil mais discreto, o que a fez quase desaparecer do radar da política internacional”, avalia Goretti.

Para os próximos meses, além de esforços nos bastidores para reabilitar as relações com os Estados Unidos, a diplomacia italiana deverá intensificar a interação com potências médias. Isso inclui países do Golfo, como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Qatar, bem como aliados como Canadá, Austrália e Japão.

“Todos esses países, com suas particularidades, compartilham o fato de que não se beneficiam de forma alguma da desordem global”, explica Goretti, justificando a escolha desses parceiros estratégicos.

Paralelamente, sob pressão do partido recém-lançado do ex-general Roberto Vannacci, que adota posições mais à direita, Meloni pode ser tentada a proferir declarações mais radicais contra a União Europeia. Com a Itália se preparando para as urnas no primeiro semestre do próximo ano, a dinâmica interna e externa se entrelaça.

“Espero uma oscilação entre ataques ocasionais, tomadas de posição polêmicas contra a burocracia europeia, e uma atitude mais transacional na prática, na qual se busca um entendimento”, projeta Goretti. Resta saber se, desta vez, Meloni conseguirá navegar com sucesso nessa posição ambígua. (Michele Oliveira/FOLHAPRESS)

FONTE/CRÉDITOS: Fernando Henrique - Estágio DM