Desde o início oficial das campanhas em agosto, as dúvidas em torno do futuro fiscal e da dívida pública brasileira vêm desestabilizando os ativos financeiros no país. A falta de sinalizações claras dos candidatos sobre a condução das contas estimula a projeção de juros mais elevados, pressionando diretamente o Ibovespa e o real.

Aliada aos conflitos no Oriente Médio e à inflação global decorrente das tensões internacionais, a conjuntura doméstica impulsionou a saída de capital estrangeiro do mercado acionário local e gerou um saldo cambial negativo no mês.

Dados oficiais da B3 apontam que o saldo de investidores internacionais registra déficit de R$ 18,7 bilhões em agosto, configurando o pior desempenho mensal de 2026. No entanto, o acumulado anual da Bolsa ainda preserva resultado positivo de R$ 22,3 bilhões.

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O cenário é agravado pela evasão de divisas. Segundo o Banco Central, foram retirados US$ 2,55 bilhões do país entre o início de agosto e o dia 21, sendo que apenas na última semana desse intervalo o saldo negativo alcançou US$ 4,055 bilhões.

Volatilidade eleitoral pesa sobre o mercado

Diante desse panorama instável, o JP Morgan reduziu a recomendação para ações brasileiras de 'overweight' (acima da média) para 'neutra'. A instituição financeira destacou que a volatilidade inerente ao pleito é um dos fatores determinantes para a revisão.

O fluxo recente difere do início do ano, quando aportes estrangeiros na Bolsa somaram R$ 26,5 bilhões em janeiro — montante similar ao total depositado em todo o ano de 2025. Naquele momento, o fluxo cambial também foi superavitário em US$ 5,1 bilhões.

A confiança inicial era impulsionada pela perspectiva de que a taxa Selic recuasse para a faixa de 12%, o que aumentaria a atratividade da renda variável. Contudo, analistas do Boletim Focus reajustaram as projeções, estimando agora um corte mais modesto, encerrando o ano em 13,75%.

Além disso, a busca global por diversificação de carteiras, motivada pelas incertezas associadas às políticas de Donald Trump nos Estados Unidos, perdeu força para conter as preocupações econômicas internas.

Dívida pública preocupa investidores

O endividamento estatal amplia a cautela do setor financeiro. A dívida bruta brasileira saltou de 71,7% do PIB, no fim de 2022, para 81,9% em junho deste ano, elevando os prêmios de risco exigidos pelos investidores.

Em relatório assinado por analistas como Rodolfo Angele e Emy Shayo Cherman, o JP Morgan ressalta que o candidato vencedor enfrentará juros reais expressivos e déficit fiscal, lembrando que historicamente o país apresenta desempenho fraco nos seis meses anteriores ao pleito.

O Morgan Stanley adverte que o próximo governo precisará apresentar um plano crível para estabilizar a dívida. Em cenário pessimista, sem reformas profundas, a instituição prevê que o dólar pode disparar a R$ 6,00. Já um plano consistente de consolidação de despesas poderia projetar a moeda entre R$ 4,50 e R$ 5,25.

Juros futuros afetam empresas

Segundo João Daronco, analista da Suno Research, o período pré-eleitoral costuma elevar a pressão por gastos públicos, impulsionando os juros futuros. Esse movimento encarece o crédito para companhias abertas, reduz a atividade no varejo e amplia o risco de inadimplência no setor bancário.

Eleição pode definir trajetória fiscal a partir de 2027

Luan Aral, especialista em câmbio da Genial Investimentos, enfatiza que a continuidade das políticas atuais sem correções manterá a curva de juros em patamares elevados a partir de 2027. Para ele, a prioridade do mercado financeiro está na solidez do programa fiscal apresentado, independentemente da vertente política do vencedor.

FONTE/CRÉDITOS: Fernando Henrique - Estágio DM