Espaço para comunicar erros nesta postagem
Nesta quarta-feira (15), às 16h, Lionel Messi, vestindo a camisa da Argentina, fará sua estreia em um confronto oficial contra a Inglaterra. O embate, válido pela 2ª semifinal da Copa do Mundo, acontece em Atlanta, nos Estados Unidos, no Mercedes-Benz Stadium, prometendo um duelo que transcende o esporte e carrega uma intensa rivalidade histórica.
A seleção argentina tem demonstrado serenidade no Mundial, mesmo diante de desafios. Sua estratégia consiste em controlar o jogo, movimentar a bola no meio-campo e, então, permitir que Messi execute sua genialidade. Um exemplo disso foi a virada heroica por 3 a 2 sobre o Egito nas oitavas de final, também no Mercedes-Benz Stadium.
Este novo capítulo da rivalidade entre argentinos e ingleses remonta a confrontos épicos. Um marco foi a Copa de 1966, quando a Inglaterra venceu a Argentina por 1 a 0 nas quartas de final. A partida ficou marcada pela polêmica expulsão do meio-campista Antonio Rattín em 23 de julho daquele ano.
Desde o título de 1966, a Inglaterra não conseguiu repetir o mesmo sucesso em Mundiais. Contudo, a tensão entre as nações se intensificou fora dos gramados com a Guerra das Malvinas, um conflito no Atlântico Sul pela posse das ilhas, localizadas a 500 km da costa patagônica. O embate resultou na morte de 649 argentinos, deixando uma ferida aberta na memória nacional.
A Guerra das Malvinas foi deflagrada em 1982 pela então primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, que enfrentava alta impopularidade e ordenou a ação militar. O conflito durou 74 dias e, até os dias atuais, o Reino Unido mantém o controle sobre as ilhas, apesar das reivindicações argentinas.
A dimensão do trauma foi expressa por Diego Armando Maradona em 2000: “Quando chegamos à Espanha, vimos todos aqueles garotos argentinos destroçados pela Guerra das Malvinas, uma carnificina de pernas e braços, enquanto militares filhos da puta nos diziam que estávamos ganhando a guerra”.
O embate icônico: algoz e vítima
A Copa de 1986 foi palco de um confronto memorável no estádio Azteca, onde a Argentina de Maradona enfrentou a Inglaterra. Em um lance crucial, o camisa 10, com seus um metro e sessenta e cinco centímetros, precisou saltar e esticar o braço, impulsionando-se no ar com as pernas para alcançar a bola.
Aos 6 minutos do segundo tempo, a tensão era palpável. Maradona se aproximava da área, e o goleiro inglês Shilton, em desvantagem, preparava-se para um choque aéreo. O argentino, determinado, dividiria a bola sem hesitar, buscando antecipar-se ao adversário.
Shilton decidiu afastar o perigo com um soco na bola, uma ação aparentemente simples para um goleiro. Contudo, no alto, Maradona ajustou seu corpo de forma inesperada. Em vez de uma cabeçada, ele fechou o punho, alterando o curso da jogada.
Com os dois braços erguidos, "El Pibe de Oro" saltou, observou o árbitro e, em seguida, disparou em direção à linha lateral. Na “Radio Argentina”, o narrador uruguaio Víctor Hugo Morales explodiu em um grito icônico: “Gooooool! Gooooool argentino!”.
Morales complementou sua narração, afirmando: “O bandeirinha não viu, o árbitro deu uma olhadinha, enquanto os ingleses seguem protestando, com toda a razão, de todas as formas.” Este momento histórico foi detalhadamente explorado por Juan Cabral e Santiago Franco no documentário “El Partido”.
A "Mão de Deus" e a revanche das Malvinas
Para a perspectiva inglesa, o lance conhecido como "La Mano de Dios" foi visto como uma trapaça. O jornalista Adwaidh Rajan, da BBC Sport, descreveu a ação de Maradona como “infame”, reconhecendo que, no contexto da época, ela adquiriu o simbolismo de uma revanche.
Carlos Bilardo, então treinador da Argentina, ressaltou ao El País a profundidade da rivalidade com os "Três Leões". Ele relembrou: “Na escola, nos ensinavam sobre as invasões britânicas [1806-1807] e sobre o que aconteceu quando eles desfilaram pelas ruas — jogamos óleo fervendo neles”.
Aos dez minutos do segundo tempo, com a Argentina liderando por 1 a 0, Bilardo observava do banco. A jogada se desenrolava: Cuciuffo passou para Enrique, que serviu Maradona. De costas para o gol, o craque dominou uma bola desafiadora. Hugo Morales narrava: “Marcado por dois. Maradona pisa na pelota.”
"Dieguito" então driblou Beardsley, conduziu a bola com maestria, superou Reid e avançou em direção ao gol inglês. Maradona corria em uma exibição de pura arte e velocidade. O camisa 10 se aproximava da área, observando atentamente os zagueiros e o goleiro adversário.
O "Gol do Século": a soma do talento de Maradona
Conforme o jornalista Guillem Balagué, autor de “Maradona: De Diego a D10S”, essa jogada representou “a soma do talento de Maradona: o domínio da bola, os dribles, as mudanças de direção e o ritmo”. O craque ainda lançou um olhar rápido para Valdano antes de encarar o goleiro, o último obstáculo.
Doze anos após o icônico jogo de 1986, Argentina e Inglaterra se reencontraram na Copa do Mundo de 1998. A partida, válida pelo mata-mata, terminou em empate e ficou marcada pela expulsão de David Beckham, após um incidente com Diego Simeone. A Argentina venceu nos pênaltis por 4 a 3.
David Beckham, em declaração à Fifa, enfatizou o impacto daquele cartão vermelho: “Aquela expulsão, e tudo o que aconteceu nos anos seguintes, marcou o período mais difícil da minha carreira”. Sua redenção viria apenas quatro anos mais tarde, na Copa de 2002, no Japão, quando a Inglaterra venceu a Argentina por 1 a 0.
Nesta quarta-feira, às 16h, Lionel Messi disputará seu 205º jogo pela seleção alviceleste. O capitão carrega consigo o peso da história, desde as invasões britânicas de 1806, passando pela Guerra das Malvinas de 1982, até a genialidade que o define. Este confronto promete ser muito mais do que uma simples partida de futebol, apesar das declarações de Lionel Scaloni.
Nossas notícias
no celular

Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se