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Uma nova pesquisa, conduzida pela Quaest a pedido do Instituto Infinis entre maio e junho de 2026, revela a alarmante persistência da violência contra crianças e adolescentes no Brasil. Apesar de nove em cada dez entrevistados defenderem o diálogo como a melhor forma de educar, a prática de agressões físicas e verbais ainda é disseminada. O estudo também aponta para a preocupante baixa intervenção de testemunhas em situações de agressão, enquanto o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania registrou 115.814 denúncias de violações de direitos nos primeiros quatro meses de 2026.
Embora situações extremas, como a de um pai flagrado agredindo a filha de 3 anos em Francisco Beltrão (PR), sejam consideradas atípicas, os números de denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes são expressivos. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania contabilizou 115.814 denúncias apenas entre janeiro e abril de 2026, um dado preocupante diante dos aproximadamente 55 milhões de brasileiros com menos de 18 anos.
A contradição entre o que se acredita e o que se pratica é um dos pontos centrais do estudo. Enquanto a grande maioria defende o diálogo como método primordial de educação, os dados revelam outra realidade: 62% dos entrevistados admitiram já ter gritado com uma criança, 49% confessaram ter dado tapas e 27% reconheceram o uso de objetos para bater.
A pesquisa, contudo, não aprofundou as causas dessa disparidade, nem a influência de fatores como o estresse diário ou o consumo de substâncias psicoativas na manifestação desses comportamentos agressivos.
Para Márcia Kalvon, diretora executiva do Instituto Infinis, a compreensão dessas percepções é crucial. "Compreender essas percepções é fundamental para romper o ciclo intergeracional de violência e orientar políticas públicas de prevenção. Cada criança protegida hoje representa menos violência amanhã", destacou em nota.
Os pesquisadores ressaltam que a violência contra crianças frequentemente perpetua-se por gerações, sendo replicada por indivíduos que a vivenciaram em suas próprias infâncias.
Detalhes do levantamento
Este estudo representa a segunda edição da pesquisa "Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes", que busca traçar um panorama atualizado sobre o tema no país.
A edição anterior, realizada em 2023, já havia evidenciado esse paradoxo. Naquela ocasião, 93% da população defendia o diálogo, mas 66% admitiram ter gritado, 52% dado tapas e 38% utilizado objetos para agredir crianças.
Apesar da frequência dos comportamentos agressivos, um aspecto positivo observado é a redução das agressões com objetos, consideradas as mais graves, em comparação com a edição anterior do estudo.
A pesquisa, que entrevistou 2.202 brasileiros maiores de idade entre maio e junho de 2026, também se debruçou sobre a reação das pessoas ao presenciar atos de violência contra crianças. Um dado alarmante é que dois terços dos entrevistados (62%) afirmaram não intervir nessas situações.
Dentre aqueles que optam por não interceder, metade justifica a inação por considerar a agressão um assunto particular, não cabendo a terceiros interferir.
Os demais entrevistados que não intervêm expressaram receio da reação do agressor, citando como exemplo o incidente no Paraná, onde o pai agressor ameaçou quem tentou questionar sua conduta.
Adicionalmente, o estudo analisou a percepção sobre o trabalho infantil. Apesar de 93% dos entrevistados priorizarem os estudos para as crianças, 61% consideram aceitável que elas trabalhem. Para adolescentes, a aceitação é ainda maior: 88% defendem que trabalhem se desejarem, e 71% acreditam que devem trabalhar sob determinação dos pais.
A pesquisa também revelou uma lacuna no conhecimento legislativo: 71% dos participantes não souberam citar leis de proteção à infância, mesmo após discussões recentes sobre temas como o ECA Digital.
A versão integral do levantamento será divulgada em setembro, durante o 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância (FPPSI), evento promovido pelo Instituto Infinis.
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