Especialistas vinculados à Fundação do Câncer alertam que as bases de dados governamentais no Brasil possuem deficiências em informações cruciais para detectar e tratar precocemente a patologia, que vitimou 5.588 indivíduos no território nacional apenas no ano passado.

Após o exame das estatísticas provenientes dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC), do Integrador dos Registros Hospitalares de Câncer (IRHC) e do Sistema de Informação sobre Mortalidade, técnicos da entidade notaram falhas significativas para o planejamento de ações preventivas. Entre os pontos cegos, destacam-se a ausência de registros sobre a etnia ou cor dos pacientes (em mais de 36% das ocorrências) e o nível de instrução escolar (em aproximadamente 26% dos casos).

“Tais indicadores são fundamentais em uma nação como a nossa, onde os índices de radiação ultravioleta oscilam entre altos e extremos”, destacou o epidemiologista Alfredo Scaff, responsável pela coordenação do levantamento, em comunicado oficial.

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De acordo com Scaff, o preenchimento correto dessas informações poderia guiar medidas de prevenção e facilitar a descoberta rápida do tumor, evitando que o diagnóstico ocorra em estágios avançados.

No Sudeste brasileiro (ES, MG, RJ e SP), o vácuo de dados sobre raça e cor atingiu os maiores patamares, chegando a 66,4% nos casos de câncer não melanoma e 68,7% no tipo melanoma, que é considerado o mais letal.

“Essa carência de detalhes impede que se façam estudos mais profundos sobre as disparidades raciais no sistema de saúde.”

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Já a região Centro-Oeste (DF, GO, MS e MT) liderou a falta de registros sobre a escolaridade dos enfermos, com índices de 74% para tumores não melanoma e 67% para melanomas.

Dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) reiteram que essa é a neoplasia de maior incidência entre a população brasileira.

As variações mais comuns incluem o carcinoma basocelular e o espinocelular, ambos localizados na camada superficial da pele. Por outro lado, o melanoma, originado nas células que produzem pigmento (melanócitos), é menos recorrente, porém muito mais agressivo e com maior chance de metástase.

O Inca projeta que, no triênio entre 2026 e 2028, surjam anualmente cerca de 263.282 novos casos do tipo não melanoma e 9.360 do tipo melanoma. A maior concentração deve ocorrer no Sul do país (PR, RS e SC), região que registrou as taxas mais altas de óbitos por melanoma em 2024, especialmente entre o público masculino.

Detalhes do levantamento

Utilizando métricas oficiais do Inca, a Fundação do Câncer revelou em relatório publicado nesta segunda-feira (14) que o Brasil contabilizou 452.162 diagnósticos de câncer de pele entre os anos de 2014 e 2023.

A enfermidade costuma se manifestar com mais frequência após os 50 anos. Enquanto o câncer não melanoma é mais prevalente em homens, o melanoma atinge ambos os sexos de forma equilibrada em todas as regiões do país.

O principal gatilho para o surgimento dos tumores é a exposição aos raios UV, com riscos variando segundo a tonalidade da pele e o padrão de contato com o sol. Outros componentes de risco englobam a genética familiar, a presença de sinais irregulares, queimaduras solares severas no passado e a exposição a agentes químicos em ambientes de trabalho ou ambientais.

“Como a radiação ultravioleta é o maior agravante, as pessoas logo pensam em lazer na praia e uso de filtro solar, mas as formas de risco e proteção vão além disso”, adverte Scaff.

“É essencial focar em profissionais que exercem atividades ao ar livre, como coletores de lixo, agentes de segurança, operários da construção e produtores rurais. No Brasil, o setor agrícola é expressivo, e esses trabalhadores precisam, além do protetor, de equipamentos como camisas de manga longa, chapéus e óculos com filtro UV”, pontuou o pesquisador.

O especialista também mencionou os perigos de fontes de luz artificial, a exemplo das câmaras de bronzeamento.

“Episódios de exposição intensa e esporádica, especialmente com queimaduras solares na infância, elevam as chances de melanoma, enquanto a exposição prolongada e constante ao longo dos anos está ligada aos tipos não melanoma.”

Procurado, o Ministério da Saúde informou que analisa os dados apresentados pela fundação e aguarda para se manifestar. Acesse o conteúdo completo do estudo através deste link.

FONTE/CRÉDITOS: Alex Rodrigues - Repórter da Agência Brasil