Espaço para comunicar erros nesta postagem
A Polícia Federal (PF) desvendou um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro que movimentou bilhões de reais internacionalmente, liderado por Victor Shimada, o brasileiro sancionado pelo governo dos EUA por sua ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). A investigação aponta que o grupo utilizava uma combinação de criptoativos, repasses eletrônicos e dinheiro vivo para realizar transferências de valores entre países, operando fora do radar das autoridades por anos.
O relatório da PF, obtido pelo Metrópoles, detalha que Shimada, suspeito de chefiar essa organização bilionária, implementou uma versão modernizada do tradicional "dólar-cabo", estendendo suas operações por, no mínimo, cinco nações.
O "dólar-cabo" consiste em um método clandestino de câmbio, no qual o dinheiro não cruza fisicamente as fronteiras. Em vez disso, o sistema se baseia na compensação de créditos e débitos simultaneamente em dois países distintos, prática que foi aprimorada pela quadrilha.
A inovação do esquema de Shimada residiu na integração de criptomoedas e plataformas de pagamento digital. Essa estratégia conferiu maior agilidade e discrição às operações, permitindo a movimentação de bilhões de reais sem o conhecimento das autoridades por um longo período.
Lá e cá
O funcionamento do esquema se dava por meio de um engenhoso sistema de compensações, e não por transferências diretas. No exterior, os membros da organização recebiam valores em moedas como euros, dólares, pesos argentinos ou guaranis paraguaios. Simultaneamente, no Brasil, o grupo de Shimada entregava o equivalente em reais aos destinatários locais.
Dessa forma, os clientes conseguiam movimentar capital entre diferentes nações, contornando o sistema bancário tradicional. Isso permitia evitar impostos e o rastreamento por parte das autoridades, transformando recursos ilícitos em dinheiro aparentemente "limpo" no destino.
Um dos exemplos da complexidade da operação foi registrado em Portugal. Em uma conversa interceptada pela PF, o investigado Carlos Henrique Costa Almeida questiona Shimada sobre a disponibilidade de euros para venda. O motivo era o pedido de um ex-membro do PCC, que desejava receber aproximadamente um milhão de reais no Brasil.
Na mesma troca de mensagens, Shimada indaga se Almeida poderia receber 300 mil euros em dinheiro, valor que, à época, equivalia a cerca de R$ 1,5 milhão. O objetivo era revender essa quantia para outros brasileiros residentes em Portugal. Operações análogas foram detectadas nos Estados Unidos, Paraguai e Argentina.
Doleiro 2.0
A principal distinção entre este esquema e o de um doleiro tradicional reside na utilização intensiva de meios eletrônicos. No universo dos criptoativos, a quadrilha empregava Bitcoin e USDT (Tether). As investigações revelaram a existência de "planilhas de tokens", ferramentas cruciais para gerenciar operações simultâneas que somavam milhões de dólares em cidades como Houston, Chicago e Los Angeles.
Uma dessas planilhas de tokens indicou movimentações de U$ 7,5 milhões. Em gravações de áudio, os envolvidos mencionaram cifras como "2m" em Houston e "5m" em Chicago. Uma parcela significativa dessas operações ocorria nos EUA, país que posteriormente imporia sanções a Shimada e suas empresas associadas.
A análise forense dos celulares de Victor Shimada e de seu parceiro, Ygor Saviolli, possibilitou a identificação de endereços específicos de criptoativos. Esses endereços, sequências alfanuméricas como "bc1qlc28tqhtlzl7hkd7zg5fd53" (exemplo de uma carteira de Bitcoin), eram cruciais para as transações.
Além das operações com criptoativos, o esquema empregava sistemas de pagamentos eletrônicos. Nos Estados Unidos, o sistema Zelle, comparável ao Pix brasileiro, era largamente utilizado. Contudo, ao contrário do Pix, gerido pelo governo, o Zelle é um serviço privado da Early Warning Services, controlada por gigantes financeiros como Bank of America, JPMorgan Chase e Wells Fargo.
As investigações apontaram que o Zelle e o Banco Wells Fargo foram utilizados em transferências de valores associados a supostas transações de tráfico de haxixe, disfarçadas sob o código "iPhone".
Malas e notas de R$ 2
Apesar da forte dependência de ferramentas digitais, o esquema ainda requeria a movimentação de dinheiro físico, internamente denominado "papel" ou "vivo". Essa etapa era executada por indivíduos no Brasil, encarregados de coletar e entregar volumes de dinheiro em espécie.
Os deslocamentos eram monitorados via aplicativo Waze. Em 2023, Stella Stefanie Oliveira, identificada como uma "secretária" de Shimada, enviou uma captura de tela que exibia um trajeto de 12 minutos até um endereço nas proximidades da Rua Augusta, no centro de São Paulo.
Um aspecto que intrigou os investigadores foi o engenhoso método de confirmação das entregas: o grupo utilizava notas de R$ 2, nas quais eram manuscritos a data e o valor da transação. A fotografia dessa cédula, enviada por celular, servia como recibo e prova final da operação.
Códigos
Para evadir a vigilância das autoridades, o grupo empregava uma complexa nomenclatura em suas comunicações. Termos como "iPhone" designavam haxixe; "verde" ou "azul" referiam-se a dólares; e "branco" indicava outras formas de investimento.
Celulares descartáveis eram conhecidos como "bomba", e as conversas ocorriam em aplicativos criptografados, como Signal e Telegram. A investigação aponta que Shimada, em uma tentativa de destruir provas, chegou a apagar todo o conteúdo de seu aparelho ao ser abordado na imigração de Miami.
Sanção norte-americana
Victor Shimada foi um dos alvos da sanção imposta pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, sob a acusação de integrar uma rede de lavagem de dinheiro com vínculos ao PCC. Essa foi a primeira vez que os EUA aplicaram uma sanção específica por ligação com a facção, após classificá-la como terrorista.
As sanções atingiram dois cidadãos brasileiros — Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira — além das empresas Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda, Wave Construções Inteligentes Ltda e Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda (Portugal).
A medida implica que todos os bens e ativos dos envolvidos sob jurisdição dos EUA sejam sancionados. Adicionalmente, cidadãos e empresas americanas estão proibidos de realizar negócios com eles, e instituições financeiras estrangeiras que transacionarem com os sancionados estão sujeitas a sanções secundárias.
Defesa de Victor Shimada se manifesta
Em comunicado enviado ao Metrópoles, a defesa de Victor Henrique de Oliveira Shimada afirmou que, até o momento, não obteve acesso aos documentos oficiais e aos elementos que embasaram as sanções das autoridades norte-americanas. Essa ausência de acesso impede uma manifestação detalhada sobre o assunto.
"Não obstante, Victor Shimada nega veementemente qualquer envolvimento com organização criminosa ou com a prática de lavagem de dinheiro", diz a nota. "A situação será analisada com a cautela e a profundidade que o caso exige, após o efetivo acesso aos documentos que embasaram a medida e em conjunto com os profissionais que atuarão perante as autoridades competentes."
A equipe de reportagem não conseguiu contatar a defesa dos demais indivíduos mencionados na investigação. O espaço permanece aberto para futuras manifestações.
Nossas notícias
no celular

Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se