A recente filiação do governador Ronaldo Caiado ao Partido Social Democrático (PSD), anunciada na semana passada, gerou uma série de repercussões entre os deputados estaduais de Goiás. O movimento inesperado forçou os parlamentares a reavaliar suas estratégias de mudança partidária, especialmente com a proximidade da janela eleitoral. A decisão surpreendeu muitos e levantou questionamentos sobre a formação de chapas proporcionais, levando líderes a repensar a viabilidade de suas candidaturas à reeleição.

A mudança de Caiado tem um impacto particular nos membros do União Brasil na Assembleia Legislativa. Eles agora enfrentam o dilema de permanecer na legenda, que passará a ser comandada pela primeira-dama Gracinha Caiado, ou buscar novas siglas que possam oferecer melhores condições de competitividade para o próximo pleito. A falta de comunicação prévia sobre a transição deixou os aliados em um estado de espera por diretrizes estratégicas.

A janela partidária e seus efeitos

A janela partidária é um período estabelecido pela legislação eleitoral que permite a políticos com mandato eletivo trocar de partido sem correr o risco de perder o cargo por infidelidade. Conforme o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), essa janela ocorre seis meses antes das eleições, o que significa entre março e abril de 2026, quando os parlamentares poderão formalizar suas novas filiações.

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Nos bastidores, deputados estaduais expressam preocupação com a necessidade de uma maior atenção às candidaturas para a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego). Observa-se que o acordo entre Caiado e o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, teria priorizado a formação de uma chapa competitiva para deputado federal, com o objetivo de eleger cinco representantes para a Câmara dos Deputados.

Mesmo antes da formalização da filiação ao PSD, Rueda já havia dialogado com Gracinha Caiado e o vice-governador Daniel Vilela (MDB) sobre a manutenção do empenho governista na eleição de deputados federais. Nomes como Pedro Sales, secretário de Infraestrutura, e Fátima Gavioli, secretária de Educação, foram mencionados como potenciais candidatos. Contudo, o mesmo nível de dedicação não teria sido direcionado à chapa estadual.

A bancada do União Brasil na Alego é composta por oito membros: Talles Barreto, líder do governo, Lincoln Tejota, Virmondes Cruvinel, Amauri Ribeiro, Dra. Zeli, Rubens Marques e Veter Martins. Além deles, o presidente da Casa, Bruno Peixoto, tem planos de disputar uma vaga na Câmara Federal. A federação União Progressista também inclui os três deputados do PP: Alessandro Moreira, Jamil Cafile e Vivian Naves.

Alguns deputados reconhecem que a disputa será mais árdua para quem faz parte da base governista. Essa dificuldade não decorre de um desgaste político, mas sim da alta concentração de candidatos competitivos em poucas legendas, um cenário que pode gerar alterações significativas na composição da próxima legislatura.

Parlamentares buscam novas legendas

Diante desse cenário, diversos parlamentares começaram a sondar a possibilidade de migrar para legendas com projetos políticos considerados mais sólidos. Entre as alternativas em análise estão as chapas do MDB e da federação formada por PRD e Solidariedade, vistas como competitivas por oferecerem espaço para candidatos com maior potencial de votos.

Além disso, deputados têm expandido seus diálogos com outras duas siglas, cujos nomes não foram revelados, mas que estariam dispostas a abrir exceções e se tornar opções viáveis para pré-candidatos à reeleição.

A permanência de Bruno Peixoto

A manutenção do presidente da Assembleia Legislativa, Bruno Peixoto, no União Brasil tornou-se um ponto estratégico para o governo estadual. Nos bastidores, auxiliares do Palácio das Esmeraldas estão trabalhando para persuadir o parlamentar a não se filiar ao PRD, onde ele assumiria a liderança da Federação Renovação Solidária.

A insistência tem uma justificativa clara: o União Brasil necessita de candidatos fortes para a Câmara Federal, em cumprimento ao acordo que mantém Gracinha Caiado à frente da legenda em Goiás. Peixoto, que já demonstrou considerável força eleitoral, seria um elemento crucial nessa equação.

No entanto, o parlamentar tem resistido às pressões. Para ele, a presidência de um partido representa uma prioridade que se sobrepõe a outros arranjos políticos. Essa postura tem raízes em um episódio recente: em 2024, quando tentou concorrer à prefeitura de Goiânia, teve sua candidatura vetada por Caiado e foi impedido de deixar o União Brasil.

Na última sexta-feira, o governador realizou seu primeiro encontro com dirigentes estaduais do PSD no Palácio das Esmeraldas. A reunião, que durou aproximadamente uma hora, teve como objetivo apresentar as razões de sua mudança partidária e expressar confiança em uma eventual candidatura presidencial.

Entre os presentes estavam o deputado estadual Wilde Cambão, o ex-prefeito de Aparecida de Goiânia Gustavo Mendanha, o secretário-geral do PSD Samuel Almeida, o presidente da Codego Francisco Júnior e o deputado federal Ismael Alexandrino.

Durante o encontro, Caiado sinalizou sua disposição para colaborar na montagem das chapas proporcionais e solicitou empenho coletivo na formação das listas para deputados federais e estaduais. O ambiente foi positivo: Wilde Cambão, que inicialmente planejava deixar a sigla, reconsiderou sua decisão e manifestou a intenção de disputar a reeleição pelo PSD.

A entrada do governador no partido abre caminho para outras filiações que estão em negociação. As deputadas federais Flávia Morais (PDT) e Lêda Borges (PSDB) já consideravam a mudança e podem formalizar a migração em breve. Ismael Alexandrino, que vinha dialogando com o PL, deverá permanecer no PSD.

O rearranjo político

A troca de partido do governador complica a estrutura política que vinha sendo construída em torno da pré-candidatura de Daniel Vilela (MDB) ao governo estadual. O vice-governador agora precisa gerenciar uma equação mais intrincada: Caiado tem compromissos com o PSD, o MDB precisa estruturar uma chapa competitiva e o União Brasil também demanda atenção.

Líderes de outras legendas da base governista perceberam a oportunidade e intensificaram as cobranças por maior participação de Caiado e Daniel na organização de suas nominatas. Os acordos firmados ao longo de 2025 estão sendo revisados diante do novo cenário partidário.

Essa reconfiguração afeta não apenas as chapas majoritárias, mas toda a distribuição de candidatos proporcionais. Dirigentes partidários precisam recalcular espaços, negociar prioridades e equilibrar os interesses de múltiplas lideranças em um prazo cada vez mais restrito.

Disputa acirrada em 2026

Os números evidenciam a pressão por vagas: 38 dos 41 deputados da atual legislatura buscam a reeleição em 2026, um índice que supera significativamente as tentativas de 2022. Esse panorama intensifica a competição interna e reduz a margem para acomodações políticas.

A experiência do pleito anterior serve como referência. Em 2022, a janela partidária foi amplamente utilizada pelos deputados goianos: 28 das 41 cadeiras tiveram seus ocupantes mudando de legenda no período permitido. Dos 30 parlamentares que disputaram a reeleição, 20 foram reconduzidos aos seus cargos.

Cada chapa para deputado estadual pode lançar até 42 nomes, mas esse número é o mesmo aplicado às federações, que precisam decidir como a lista será composta. A existência de emendas impositivas e a maior visibilidade institucional nos últimos anos tornaram o assento parlamentar ainda mais desejado.

O cientista político Felipe Andrade avalia que o cenário de 2026 será mais desafiador do que o anterior. “A convergência de federações, a emergência de novas legendas e o aumento do número de postulantes elevam a complexidade. A janela partidária se transforma menos em um rito de ruptura e mais em um mecanismo de ajuste das correlações eleitorais. Quem conseguir interpretar o tabuleiro com antecedência terá uma vantagem decisiva”, conclui Andrade.

As próximas semanas serão cruciais para a definição do mapa partidário de Goiás. Com a janela eleitoral se aproximando, os deputados precisam tomar decisões rápidas sobre seus futuros políticos. Para as legendas, o desafio é montar chapas competitivas, acomodar lideranças regionais e oferecer condições logísticas e financeiras para as campanhas. No geral, as movimentações antecipadas indicam um pleito mais fragmentado e a necessidade de articulações refinadas entre a estrutura partidária e a capacidade de mobilização local.

FONTE/CRÉDITOS: Glaucio Montana