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A seleção francesa de futebol viveu seu inferno particular na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, protagonizando uma das maiores crises internas já registradas no esporte. O que deveria ser a busca por um título mundial transformou-se em um vexame com uma greve de jogadores e uma eliminação precoce, detalhes perturbadores agora expostos no documentário da Netflix, "A Greve da Seleção da França", que mergulha nos bastidores daquele período conturbado.
O filme "Le Bus, les Bleus en grève", conhecido no Brasil como "A Greve da Seleção da França", oferece uma autópsia detalhada do caos que tomou conta do vestiário. Nele, o ex-capitão Patrice Evra e o então técnico Raymond Domenech, figuras centrais do conflito, apresentam suas versões dos fatos, revelando uma profunda animosidade mútua.
Desde o início da narrativa, fica evidente a aversão entre eles. Os documentaristas Christophe Astruc e Jérôme Frite tiveram acesso ao diário de Domenech, onde o ex-treinador não poupava críticas aos seus comandados, expressando, por exemplo: “Às vezes, tenho acessos de ódio contra esses idiotas.”
As anotações de Domenech não paravam por aí. Em relação ao meio-campista Yoann Gourcuff, o técnico aposentado o descrevia de forma pejorativa: “Que idiota! Levemente autista para começar, e idiota para completar.” Essas palavras agressivas sublinham a atmosfera tóxica que cercava a equipe, culminando em sua eliminação na primeira fase do Mundial de 2010.
O histórico de tensões e a classificação controversa
Ao longo de 1 hora e 20 minutos, Astruc e Frite exploram os abalos sísmicos que precederam o desastre. Um marco foi o "Le fiasco de l’Euro 2008", que gerou uma série de rachaduras na confiança do grupo. Após a eliminação da competição europeia, Domenech fez uma declaração inusitada à emissora francesa "M6": “Só tenho um projeto, casar com Estelle.”
Mesmo com o pedido de casamento aceito, a situação da equipe não melhorou. A França se arrastou nos meses seguintes, exibindo um futebol sem brilho. A classificação para a Copa do Mundo da África do Sul só foi garantida na repescagem contra a Irlanda, no Stade de France, com uma "ajudinha" bastante polêmica.
O lance crucial envolveu o atacante Thierry Henry. Em um momento da prorrogação, ele ajeitou a bola com a mão antes de fazer o passe para o zagueiro Gallas, que marcou o gol da classificação. Apesar da clara irregularidade, o árbitro sueco Martin Hansson validou o tento, gerando indignação internacional.
Anos antes, em 2006, Henry já havia sido o algoz do Brasil. Em um momento icônico, o lateral-esquerdo Roberto Carlos estava abaixado, amarrando o cadarço, enquanto o craque francês, livre, empurrava a bola para as redes. Essa capacidade de decisão, no entanto, contrastava com o ambiente caótico de 2010.
A disputa pela capitania e a alienação do elenco
Em Knysna, África do Sul, 2010, a crise se aprofundava com a disputa pela faixa de capitão. Patrice Evra havia assumido a função após William Gallas reivindicá-la. “Se ele é o capitão, então eu sou o general”, tiranizou Domenech, conforme revelado no documentário.
Evra, por sua vez, recuou, preocupado com a percepção de Gallas. Em entrevista ao "Le Figaro", o lateral reconheceu que as animosidades se exacerbaram: “Falávamos mais dos problemas do dia a dia do que de futebol.”
Para o jornalista Eric Michel, do "Le Parisien", Raymond Domenech falhou em sua liderança, alienando completamente o elenco. Os jogadores perderam o respeito pelo técnico, que, em vez de mediar conflitos, os ridicularizava. A estreia da equipe no Mundial, um empate sem gols contra o Uruguai, já demonstrava a fragilidade do grupo.
Mesmo com a necessidade de vencer, Domenech, influenciado por suas crenças astrológicas, manteve Thierry Henry no banco. O "leonino egocêntrico", como o técnico o descrevia, campeão do mundo em 1998 e vice em 2006, teve de se conformar com a reserva, independentemente de sua importância histórica.
O estopim da greve: a manchete e a revolta
“Tudo mudou no intervalo do segundo jogo contra o México (derrota por 2 a 1)”, recorda Michel. “Isso foi seguido pela infame e sensacionalista manchete da primeira página do ‘L'Équipe’, no sábado.” O título, que chocou o mundo, dizia: “Vai se foder, seu filha da puta imundo”.
No documentário, Evra afirma que o atacante Nicolas Anelka nunca proferiu tais palavras a Domenech: “Tivemos então 15 minutos para nos recuperarmos. Por 10 minutos, houve silêncio total, nenhuma palavra. E então o treinador atacou o Nico.”
Possesso com a publicação, Evra amassou o jornal. Domenech, por sua vez, recusou-se a olhar para o "L'Équipe", alegando que a manchete "arruinou a minha vida" e que o insulto não havia ocorrido como publicado. Segundo ele, Anelka apenas disse: “Você que administre esse seu time de merda.”
Era tarde demais. A sociedade estava chocada, e as consequências foram inevitáveis. Anelka aceitou pedir desculpas aos jogadores e à comissão técnica, mas não à imprensa, por algo que ele alegava não ter dito. Contudo, a Federação Francesa de Futebol (FFF) não recuou.
Intervenção política e o desfecho melancólico
O então presidente da FFF, Jean-Pierre Escalettes, confirmou as declarações como "verdadeiras" no principal telejornal da França. Em resposta, os jogadores, insatisfeitos com o corte de Anelka, rebelaram-se em um motim. Ninguém treinou, e o preparador físico Robert Duverne chegou a discutir acaloradamente com Evra.
A situação escalou rapidamente de ruim para péssima. A ministra dos Esportes, Roselyne Bachelot, envolveu-se, sendo enviada à África do Sul para discursar e tentar apaziguar os ânimos. Contudo, logo depois, ela os chamou de “escória” na Assembleia Nacional, sob a presidência do conservador Nicolas Sarkozy.
Se a equipe de 2010 estava fadada ao fiasco, sendo eliminada após perder para a África do Sul por 2 a 1 na terceira rodada, os "Bleus" conseguiram se reerguer nos anos seguintes. Sob a liderança de Didier Deschamps, a França reencontrou seu caminho, encantando o mundo com seu futebol e alcançando novos patamares de sucesso, um contraste marcante com a vergonha de uma década atrás.
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