Davi Alcolumbre, presidente do Congresso Nacional e senador pelo União Brasil do Amapá, dividiu a análise do veto ao Projeto de Lei (PL) da Dosimetria. A medida consistiu em remover uma seção que diminuía o período para a progressão de regime prisional de indivíduos sentenciados. Conforme Alcolumbre, essa parte específica seria prejudicial a uma alteração prévia no PL antifacção, que havia estendido o tempo necessário para tal progressão.

O Poder Executivo contesta a deliberação de Alcolumbre, alegando falta de amparo legal e de precedentes, uma vez que um veto integral não poderia ser fracionado. Nesta quinta-feira (30), o Parlamento prossegue com a análise do PL 2.162 de 2023, proposta que visa diminuir as sentenças de pessoas condenadas por tentativa de golpe de Estado, associadas aos eventos de 8 de janeiro de 2023.

O presidente do Senado Federal explicou que a remoção dos incisos 4 a 10 do artigo 1º do PL foi motivada pela alteração que esses incisos fariam no artigo 112 da Lei de Execução Penal (Lei 7.210 de 1984).

Publicidade

Leia Também:

Alcolumbre declarou que “a possível reinserção desses dispositivos contrariaria as intenções manifestadas pelo Congresso, tanto no Projeto de Lei da Dosimetria, que visava não debater o mérito de tais regras, quanto no PL Antifacção, que buscava endurecer os critérios para a progressão de regime de cumprimento de penas nos casos ali previstos”.

A eventual rejeição do veto presidencial poderia favorecer o ex-presidente Jair Bolsonaro e outras figuras implicadas no processo da suposta trama golpista, ao diminuir o período de encarceramento para aqueles condenados por tentar subverter a ordem democrática.

A sessão parlamentar agendada para hoje teve uma pauta exclusiva, priorizando a apreciação do veto à Dosimetria em detrimento de mais de cinquenta outros vetos que aguardam deliberação.

Uma vez que o PL da Dosimetria propunha uma redução no tempo para a progressão de regime de penas, a iniciativa traria vantagens para criminosos comuns, conforme advertido por especialistas ouvidos pela Agência Brasil.

O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, sustentou que não há registros de precedentes para a divisão de uma votação de veto integral e que o estágio de elaboração do projeto de lei já foi concluído.

O senador amapaense afirmou: “Após a sanção ou veto do presidente da República, torna-se inviável proceder ao fracionamento de qualquer matéria, pois a etapa de elaboração do processo legislativo já se encerrou. Este é o momento em que o Congresso Nacional decide pela concordância ou não com o veto presidencial.”

A bancada governista apresentou uma questão de ordem contestando o fracionamento, contudo, a solicitação foi negada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Discussão

O deputado Pedro Uczai (PT-SC), líder do governo na Câmara, argumentou que o Projeto de Lei da Dosimetria transgride os preceitos constitucionais.

Ele declarou: “A democracia brasileira foi alvo de um ataque por uma estrutura político-militar que visava desestabilizar a ordem constitucional. A mitigação pontual da resposta penal a esses eventos fragiliza o Estado Democrático de Direito frente a futuras tentativas de ruptura.”

Em contrapartida, a deputada Bia Kicis (PL-DF), representante da liderança do Partido Liberal, defendeu a medida de Alcolumbre como essencial para evitar que o PL da Dosimetria anule o prolongamento do período de progressão de penas.

Kicis afirmou: “Impedimos que o Projeto de Lei da Dosimetria gere consequências imprevistas e nunca almejadas pelo legislador. Tais efeitos seriam indesejáveis e inconsistentes com o arcabouço legal que acabamos de fortalecer.”

Motivação do veto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por vetar o Projeto de Lei da Dosimetria, justificando sua decisão na inconstitucionalidade da proposta e na violação do interesse público, uma vez que ela reduziria as penalidades para crimes que atentam contra a democracia.

O Palácio do Planalto explicou que “o PL teria o potencial de elevar a ocorrência de delitos contra a ordem democrática e representaria um retrocesso no processo histórico de redemocratização que deu origem à Nova República”.

Contexto

O PL da Dosimetria estabelece que, em situações onde os crimes de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado são cometidos no mesmo cenário, a penalidade aplicada será a mais severa entre elas, e não a soma das duas.

O objetivo central do projeto é modificar a metodologia de cálculo das penas, “ajustando os limites mínimo e máximo de cada tipo penal, além da abordagem geral para a determinação das sanções”.

Essas alterações poderiam favorecer indivíduos condenados pelos eventos de 8 de janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, e também militares como Almir Garnier, ex-comandante da Marinha; Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa; Walter Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil; e Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

FONTE/CRÉDITOS: Lucas Pordeus León - Repórter da Agência Brasil