Funcionários do Consulado-Geral do Brasil em Hong Kong encaminharam duas cartas coletivas ao Itamaraty, em março e abril de 2026, acusando o embaixador Wladimir Valler Filho de intimidação, perseguição e outras condutas que, segundo os relatos, transformaram o ambiente de trabalho em um local insustentável. As denúncias visam a apuração dos fatos e a proteção dos signatários contra possíveis retaliações.

Os documentos também detalham uma série de condutas consideradas impróprias e incompatíveis com a função, atribuídas ao conselheiro Hervelter de Mattos. Os servidores solicitam que o Ministério das Relações Exteriores tome as devidas providências para investigar os relatos e garantir sua segurança.

As cartas descrevem um cenário onde decisões cruciais passaram a ser implementadas de maneira unilateral, sem qualquer consulta aos demais membros da equipe. Essa postura teria gerado um clima de insegurança, silenciamento e profunda desmotivação entre os funcionários.

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Entre os incidentes mencionados na primeira carta, os funcionários alegam que o embaixador Wladimir Valler Filho mantinha um expediente reduzido e realizava viagens de caráter particular em dias úteis.

Os relatos indicam ainda que três servidoras foram afastadas de suas funções originais sem justificativa aparente, tendo suas atividades esvaziadas ao longo da gestão do embaixador.

A segunda carta detalha que uma dessas servidoras foi subsequentemente transferida para a Secretaria de Estado das Relações Exteriores, logo após formalizar suas preocupações quanto à administração do posto diplomático.

Os signatários interpretam essa transferência como uma possível retaliação, um evento que intensificou o receio de punições entre os demais funcionários do consulado.

Adicionalmente, é relatado que Wladimir Valler Filho frequentemente declarava que possuía o poder de remover “seus assessores, de todos os níveis, para onde quisesse”, uma afirmação que, conforme os funcionários, aprofundava o clima de intimidação dentro da instituição.

Condutas do conselheiro Hervelter de Mattos

No que tange ao conselheiro Hervelter de Mattos, as cartas descrevem uma série de episódios percebidos como ofensivos. O diplomata teria se referido a colegas com apelidos como “Bruxa 1”, “Bruxa 2”, “Bruxa 3” e “Fujona”.

Ele também é acusado de ter proferido a frase “I don’t see dead people” (eu não vejo pessoas mortas) ao se dirigir a um contratado local, além de ter designado uma funcionária como “a empregada do cachorro”, em alusão às responsabilidades dela com o animal de estimação do embaixador.

Os relatos ainda indicam que o conselheiro teria se recusado a frequentar o setor consular, justificando que o ambiente estaria “poluído” devido à presença de uma servidora específica.

Os funcionários também apontam uma postura intimidatória do diplomata, que supostamente ameaçava comunicar desobediências diretamente ao embaixador e fazia menção à sua influência no Itamaraty.

As cartas ainda revelam que o conselheiro teria instruído subordinados a ignorar ou apagar e-mails recebidos pelo consulado, inclusive correspondências enviadas pela profissional encarregada da promoção da língua e cultura brasileiras na região, relacionadas à organização de eventos.

Problemas na administração e o setor cultural

Os documentos também evidenciam falhas significativas na administração do consulado. Os signatários afirmam que duas auxiliares administrativas recém-contratadas foram alocadas para a área de contabilidade, enquanto uma servidora com quase três anos de experiência na chefia do setor foi mantida afastada dessas funções.

Para os autores das cartas, essa alteração colocou uma área estratégica sob a responsabilidade de funcionárias em período probatório, contribuindo para a desorganização geral do posto. Além disso, contratados locais estariam desempenhando atividades incompatíveis com seus cargos e respectivos salários.

Um dos pontos mais críticos revelados é a existência de 129 e-mails sem resposta na caixa institucional do setor cultural, alguns datando de novembro de 2025. Essas mensagens incluíam pedidos de apoio, propostas culturais, contatos de instituições de ensino e ofertas de voluntariado, resultando, segundo os autores, em uma “paralisia institucional” da área.

Os funcionários contestam a justificativa do conselheiro de uma “escassez sem precedentes de pessoal no setor cultural”, afirmando que havia servidores aptos e disponíveis para exercer essas atividades.

Encerrando as duas cartas, os signatários reiteram o pedido para que o Itamaraty investigue minuciosamente os fatos relatados, adote as medidas cabíveis e, crucialmente, garanta a proteção dos funcionários contra qualquer forma de retaliação.

Posicionamento do Itamaraty e Sinditamaraty

Em 7 de julho, o Sindicato Nacional dos Servidores do Ministério das Relações Exteriores (Sinditamaraty) divulgou em suas redes sociais que está “acompanhando a implementação das medidas decorrentes das investigações” e “monitorando as condições de trabalho da equipe local”. O sindicato reforçou que permanece “à disposição para receber relatos das servidoras e dos servidores e atuar na defesa de um ambiente de trabalho seguro e respeitoso”.

Questionado, o Ministério das Relações Exteriores confirmou o recebimento das duas cartas via Sinditamaraty. A pasta informou que as denúncias foram devidamente protocoladas na Corregedoria do Serviço Exterior, dando início a um procedimento investigativo que culminou na proposta e subsequente assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) pelos envolvidos nas acusações.

O Ministério das Relações Exteriores, contudo, esclareceu que “a remoção da servidora mencionada na consulta não tem qualquer relação com os fatos objeto do procedimento investigativo em questão”.

FONTE/CRÉDITOS: Felipe Salgado