Após décadas de espera, os restos mortais de Grenaldo de Jesus da Silva, militar da Marinha e vítima da ditadura brasileira, foram finalmente sepultados na manhã desta sexta-feira (26), em São Paulo. Silva, que foi morto em 1972 e enterrado como indigente em uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, em Perus, recebeu uma cerimônia de despedida marcada pela emoção e pela lembrança de sua luta, ao som de "Pra Não Dizer que Não Falei das Flores", de Geraldo Vandré.

O cortejo fúnebre percorreu o cemitério, culminando no sepultamento na sepultura 105, na gleba 1, quadra 2. O ato representa o encerramento de uma longa jornada para sua família e um marco na busca por memória, verdade e justiça para as vítimas do regime militar.

Uma placa com a foto de Grenaldo e um texto explicativo sobre sua vida e morte foi afixada na sepultura, perpetuando sua história para as futuras gerações. A mensagem de seu filho, Grenaldo Mesut, "Podia ser diferente, não é, meu pai?", ecoou como um lamento e um questionamento sobre os horrores do passado.

Publicidade
Publicidade

Leia Também:

A realização deste sepultamento foi um esforço conjunto entre a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (Cemdp), ligada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), a Comissão de Familiares de Pessoas Mortas e Desaparecidas Políticas de São Paulo, a concessionária Cortel e o Centro de Arqueologia e Antropologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (Caaf/Unifesp).

Homenagem emocionada

Emocionado, o filho Grenaldo Mesut prestou uma comovente homenagem ao pai, a quem conheceu pouco. "Para mim é uma felicidade muito grande, é uma mistura de emoções, mas eu estou muito feliz", declarou, expressando o desejo de que outros familiares na mesma busca também encontrem a mesma paz.

Ele ressaltou a importância de dar um lugar digno ao pai, a quem considera um herói. A mensagem escrita por Grenaldo e sua filha, que ele não conseguiu ler devido à emoção, foi lida por ela, transmitindo a dor da ausência e a esperança de um descanso final justo e honrado.

A mensagem descreveu a dor de uma ausência que atravessou décadas, gerando lacunas em histórias que nunca puderam ser vividas. "Senti falta de todos esses momentos que nunca tive", confessou, detalhando a falta de conversas, abraços e memórias que nunca foram construídas.

"Mesmo que não fosse da maneira que eu imaginei. Hoje dou um lugar à memória, ao luto que ficou suspenso e a história que insistiu em permanecer", concluiu a mensagem, buscando um encerramento para o sofrimento acumulado.

Memória e justiça pelo Estado

A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello, presente na cerimônia, destacou o profundo significado do evento para a história do Brasil e para o avanço do Estado na garantia dos direitos à memória, verdade, reparação e justiça.

"A gente quer garantir não só o direito à memória, mas à verdade, à reparação e à justiça", afirmou a ministra, ressaltando que o sepultamento, realizado no Dia Internacional de Apoio às Vítimas da Tortura, reforça o compromisso do governo em combater essa prática.

Mello assegurou que o governo federal continuará investindo em iniciativas de identificação de vítimas da ditadura, reconhecendo o longo caminho a ser percorrido, mas reafirmando o compromisso com o plano de ação em andamento.

A procuradora Eugênia Augusta Gonzaga, presidente da Cemdp, enfatizou que o ato devolve a dignidade aos corpos ocultados e às famílias que aguardavam por esse momento, fortalecendo a esperança e a luta coletiva por justiça.

Edson Teles, professor da Unifesp e coordenador do Caaf, ressaltou que a identificação das ossadas é fundamental para a construção da memória nacional e representa uma reparação histórica ao país e aos movimentos de direitos humanos.

Ricardo Polito, diretor executivo do grupo Cortel, descreveu o sepultamento como um símbolo da força, memória, verdade e dignidade humana, enfatizando a importância de devolver respeito a uma história que não pode ser esquecida.

Amelinha Teles, integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, celebrou o sepultamento como um reconhecimento do valor da luta dos familiares e um passo crucial na construção da verdade e da justiça, mas alertou que a busca por resposta para "onde estão os desaparecidos políticos?" continua.

O caso Grenaldo Silva

Grenaldo de Jesus Silva, militar da Marinha natural de São Luís (MA), foi preso em 1964 e expulso da Força por reivindicar melhores condições de trabalho. Após fugir da prisão e viver na clandestinidade, foi morto em 30 de maio de 1972 durante uma tentativa de capturar uma aeronave no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

A versão oficial inicial, divulgada pela imprensa, apontava suicídio, mas foi contestada por movimentos de anistia e familiares de desaparecidos. Documentos do IML registraram seu sepultamento como indigente no Cemitério Dom Bosco em 1º de junho de 1972.

Em 2003, uma reportagem de Eliane Brum revelou que Silva foi morto por agentes do Estado. Seus remanescentes ósseos foram identificados pela equipe do Projeto Perus em abril de 2025.

A descoberta da vala clandestina de Perus

A vala clandestina em Perus foi descoberta em 1990 pelo jornalista Caco Barcellos, que investigava homicídios praticados por policiais militares. A marcação "T" (de "terrorista") em documentos do IML revelou a existência de corpos ocultados.

A prefeitura de São Paulo iniciou escavações que resultaram na descoberta de 1.049 ossadas de vítimas da repressão, indigentes e presos políticos. Esforços para identificação foram iniciados com a Unicamp e UFMG, mas foram interrompidos.

As ossadas foram transferidas para a USP em 2002. Uma ação civil pública do Ministério Público Federal em 2009 questionou a demora na identificação. Um novo acordo em 2014 retomou os trabalhos, e em 2024, um novo acordo entre o MDHC, Unifesp e a Secretaria Municipal de Direitos Humanos de São Paulo financiou a retomada das perícias.

Em março de 2025, a então ministra Macaé Evaristo pediu desculpas aos familiares pela negligência do Estado na guarda e identificação dos restos mortais. Até então, apenas seis ossadas haviam sido identificadas: Denis Casemiro, Frederico Eduardo Mayr, Flávio Carvalho Molina, Dimas Antônio Casemiro, Aluísio Palhano Pedreira Ferreira e Grenaldo de Jesus Silva.

FONTE/CRÉDITOS: Elaine Patricia Cruz – Repórter da Agência Brasil