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Seis indivíduos admitiram culpa perante um tribunal em Miami, Flórida, nos Estados Unidos, em um complexo esquema de lavagem de dinheiro que resultou em sanções dos EUA contra brasileiros investigados por suposta conexão com o PCC. As confissões, divulgadas pelo Departamento de Justiça americano, revelam detalhes de uma operação que visava ocultar a origem ilícita de valores, principalmente do tráfico internacional de drogas.
Entre os réus que confessaram, o brasileiro Tadeu Sebastiane Rabelo Alves Barbosa, de 30 anos, confirmou ter realizado depósitos bancários nas contas de Victor Henrique de Oliveira Shimada, de 41, e de Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, de 34. Estes dois últimos foram os primeiros a serem alvo de sanções americanas após a designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas, ocorrida em maio.
O grupo, composto por cinco brasileiros que residiam irregularmente em Orlando, Flórida, e um cidadão americano, atuava como intermediário financeiro. Sua principal função era receber dinheiro em espécie e coordenar depósitos em contas bancárias abertas em pelo menos doze cidades dos Estados Unidos.
A denúncia apresentada pelos promotores detalha a abrangência da rede, citando localidades como Miami e Pensacola, na Flórida; Rochester, em Nova York; Chicago, em Illinois; Cleveland, em Ohio; Atlanta, na Geórgia; Minneapolis, em Minnesota; Los Angeles, na Califórnia; Denver, no Colorado; Seattle, no estado de Washington; Houston, no Texas; e Kansas City, no Kansas.
Confissões e a investigação em curso
Barbosa admitiu ter trabalhado como intermediário de pagamentos em dinheiro, participando de um esquema projetado para disfarçar a proveniência de valores obtidos através do tráfico internacional de drogas. Ele também revelou ter efetuado pagamentos a outros dois brasileiros, que atualmente se encontram detidos nos EUA.
Apesar das acusações, documentos do processo consultados pela reportagem, incluindo a denúncia por conspiração para lavagem de dinheiro, não fazem menção direta à facção criminosa PCC. Da mesma forma, uma nota à imprensa emitida pelo Departamento de Justiça americano em 24 de junho, que confirmava as confissões dos seis acusados e detalhava o caso, também omitiu qualquer referência ao PCC.
Contudo, a suspeita de que Shimada possua ligações com a facção paulista serviu como base para as sanções impostas. Estas foram fundamentadas em duas ordens executivas do governo americano: a 14059, focada no combate à produção e proliferação de drogas, e a 13224, que visa indivíduos ou organizações consideradas terroristas e seus apoiadores.
O Tesouro americano, em comunicado, afirmou que o brasileiro sancionado operava como o principal elo entre os operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais. Procuradores do Ministério Público de São Paulo, por sua vez, consideram Shimada um prestador de serviço de lavagem de dinheiro para o tráfico internacional de drogas do PCC, embora não o classifiquem como integrante da hierarquia da facção.
A defesa de Shimada declarou que ainda não tem conhecimento das acusações formuladas nos Estados Unidos e que um advogado será contratado no país para acessar o processo e fornecer os esclarecimentos necessários. A defesa reitera que ele nega categoricamente qualquer envolvimento com organizações criminosas e permanece amparado pela presunção de inocência, visto que o único processo com condenação contra ele ainda está em fase de recurso. A reportagem não conseguiu identificar quem representa as defesas de Stella Oliveira e Tadeu Barbosa.
Origem das receitas ilícitas
A denúncia assinada por promotores federais indica que Shimada, conhecido como "Japa", e Stella, apelidada de "Lara Croft", “facilitaram o movimento e a lavagem de receitas ilícitas”, incluindo aquelas provenientes do fornecimento de drogas. O principal responsável pelo tráfico de drogas seria o mexicano Manuel Garcia-Urrea.
Os documentos do processo não especificam qual tipo de droga era comercializada por Garcia-Urrea. Contudo, uma matéria publicada pelo jornal Miami Herald em janeiro apontou que ele é um traficante de cocaína.
As provas que sustentam o esquema foram reunidas a partir de mensagens trocadas via aplicativo WhatsApp, análise de informações bancárias e depoimentos de testemunhas.
Em um documento no qual admite sua participação no esquema, Tadeu Barbosa detalha que recebeu dinheiro em espécie nas cidades de Charlotte e Greensboro, na Carolina do Norte, e em Pensacola, na Flórida, em setembro de 2023. Ele confessou ter lavado pessoalmente US$ 388 mil, estimando-se que o valor total movimentado pelo esquema alcance aproximadamente US$ 30 milhões (equivalente a cerca de R$ 156 milhões).
Um trecho do acordo de confissão, assinado pelo réu e pelos promotores, afirma: “Tadeu Sebastiane Alves Barbosa foi um dos transportadores que recebeu o dinheiro em espécie proveniente de atividades ilegais para que o dinheiro pudesse ser depositado em caixas eletrônicos em todo o país em contas bancárias abertas em Miami e outros lugares, em um esforço para ocultar a natureza e a origem dos fundos”.
Próximos passos: Julgamento em agosto
A sexta e última admissão de culpa neste caso ocorreu em 23 de junho, conforme informações do Departamento de Justiça. As outras cinco confissões, incluindo a de Barbosa, já haviam sido aceitas pelo tribunal no início de junho.
Uma audiência de julgamento está agendada para o dia 20 de agosto. (Isabella Menon/Tulio Kruse/FOLHAPRESS)
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