No ano de 2024, o Brasil contabilizou 37.150 fatalidades no trânsito, com um notável crescimento dos óbitos de motociclistas, que totalizaram 15.459 e representaram 41,6% das mortes em vias terrestres. Uma década antes, em 2014, o cenário registrava 43.780 mortes, das quais 12.604 (28,7%) envolviam motocicletas.

Essas informações são provenientes do Atlas da Violência 2026, um levantamento divulgado nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

O estudo aponta o trânsito como uma das maiores fontes de violência fatal no território nacional. Apesar de uma redução de 20% no total de mortes no trânsito ao longo de uma década, os incidentes fatais com motocicletas registraram um acréscimo em 2024, quando comparados aos números de 2014.

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Motociclistas e a economia de aplicativos

A pesquisa destaca que a proliferação da economia de plataformas digitais reconfigurou a mobilidade urbana no Brasil, consolidando a motocicleta como um meio de sustento e trabalho para uma parcela significativa da população, com maior incidência nas regiões Norte e Nordeste.

No período de cinco anos, entre 2019 e 2024, as mortes de motociclistas no trânsito tiveram um aumento de 38%, saltando de 11.182 para 15.459 vítimas.

Em 2024, a taxa de mortalidade no trânsito foi de 17,5 por 100 mil habitantes, um índice menor que os 21,9 por 100 mil registrados em 2014; contudo, os pesquisadores expressam preocupação com a rápida retomada do crescimento desse indicador.

Os especialistas avaliam que a incessante busca por produtividade, aliada à carência de amparo social e a extensas jornadas de trabalho, posiciona os entregadores e motoristas de aplicativos entre os segmentos mais vulneráveis a fatalidades no ambiente urbano.

"Jovens ainda não desenvolveram plenamente a capacidade de avaliar consequências e, por isso, estão mais suscetíveis a riscos em diversas circunstâncias", afirmou à Agência Brasil Daniel Cerqueira, coordenador do Atlas da Violência e técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea.

A situação é agravada pelo serviço de mototáxis, onde não apenas o condutor, mas também o passageiro, são expostos a perigos, conforme a análise de Cerqueira.

O Piauí serve como um exemplo notório, com motocicletas envolvidas em 72,7% das mortes no trânsito em 2024, um percentual que supera significativamente a média brasileira de 41,6%.

Para mitigar a mortalidade no trânsito, Daniel Cerqueira elencou medidas urgentes, como a diminuição da velocidade, a promoção da educação viária, o aprimoramento da infraestrutura e da segurança nas vias, e o fortalecimento da gestão, fiscalização e arcabouço legislativo e regulatório.

"A crescente e intensiva utilização da motocicleta representa um imenso desafio para a juventude. É imperativo que se elabore uma legislação específica para abordar essa questão", sugeriu o especialista.

Homicídios por armas de fogo

Em 2024, o Brasil contabilizou 29.870 homicídios perpetrados por armas de fogo, o que representa uma diminuição de 8,8% frente a 2023 e de 31,2% em relação a 2014. A taxa nacional de homicídios por arma de fogo atingiu 14,1 por 100 mil habitantes, refletindo uma redução de 9% comparado a 2023 e de 35% em relação a 2014.

A análise dos dados entre 2014 e 2024 evidencia que a diminuição dos homicídios por arma de fogo foi abrangente na maioria do território brasileiro. Contudo, cinco estados registraram um aumento nos números absolutos: Amapá (100%), Roraima (61,7%), Pernambuco (9,9%), Piauí (8,1%) e Bahia (2,3%).

Conforme o Atlas, em 2024, as armas de fogo foram responsáveis por 70,1% dos homicídios notificados no país, o percentual mais baixo da última década.

Dentre os dez estados com maior incidência de armas de fogo em homicídios, oito pertencem à Região Nordeste, e quatro deles superaram a marca de 80%: Ceará (85,6%), Paraíba (83,9%), Amapá (83,7%) e Bahia (81,1%).

Os menores índices, por sua vez, foram observados no Distrito Federal (40,6%), Roraima (43,7%) e Tocantins (49,8%).

Os registros do Atlas indicam que, no decênio analisado, todos os estados da Região Sudeste apresentaram uma diminuição na proporção de homicídios cometidos com armas de fogo.

Na Região Norte, cinco dos oito estados exibiram um aumento, com destaque para Amapá (+40,9%) e Roraima (+47,1%). Em contrapartida, o Distrito Federal registrou a maior queda no período, com -45,9%.

De acordo com os pesquisadores do Atlas da Violência, esse panorama sinaliza uma "fragmentação progressiva nas dinâmicas da violência letal no Brasil".

FONTE/CRÉDITOS: Alana Gandra – repórter da Agência Brasil