Há mais de 30 dias, oficiais de justiça buscam cumprir uma ordem do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), para intimar o deputado federal Mário Frias (PL-SP). O objetivo é que o parlamentar preste esclarecimentos sobre possíveis falhas no direcionamento de emendas para empresas ligadas à produtora de Dark Horse, obra que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em 21 de março, o ministro Dino estipulou um prazo de cinco dias para que Frias respondesse à representação feita pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP). A parlamentar sustenta que Frias teria enviado pelo menos R$ 2 milhões para a organização não governamental (ONG) Academia Nacional de Cultura (ANC), sob a gestão da empresária Karina Ferreira da Gama.

Karina também comanda outras entidades e companhias, como o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Go Up Entertainment. Esta última é a responsável pela cinebiografia de Bolsonaro, que tem estreia prevista para setembro, pouco antes do primeiro turno das eleições municipais.

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De acordo com os registros da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 854, a oficial de justiça encarregada do caso visitou o gabinete de Frias na Câmara dos Deputados em pelo menos três ocasiões entre março e abril. Em todas as tentativas, assessores informaram que o deputado cumpria agenda de campanha em São Paulo e não forneceram detalhes sobre sua programação oficial.

Repasses de emendas

A representação de Tabata Amaral foi baseada em uma investigação jornalística de dezembro de 2025, publicada pelo site The Intercept Brasil. Segundo a reportagem, a Academia Nacional de Cultura recebeu R$ 2,6 milhões via emendas de deputados do Partido Liberal (PL), mesma legenda de Bolsonaro. Além de Mário Frias, os nomes de Bia Kicis e Marcos Pollon também são citados.

Tabata argumenta que existiria um grupo econômico operando sob comando unificado, o que dificultaria o rastreamento do uso de verba pública e poderia estar financiando, de forma indireta, produções audiovisuais com viés ideológico.

Também alvos da intimação de Dino, Bia Kicis e Marcos Pollon apresentaram suas defesas no prazo legal. Pollon confirmou ter reservado R$ 1 milhão para que a Secretaria de Cultura de São Paulo viabilizasse, através da Go Up Entertainment, a série documental Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem.

Entretanto, o deputado afirmou que o projeto não avançou devido à incapacidade técnica da entidade beneficiada. Com isso, ele teria redirecionado os recursos para a área da saúde, destinando-os ao Hospital de Amor de Barretos (SP).

“A ausência de execução do projeto afasta qualquer suspeita de desvio de finalidade ou má aplicação de recursos públicos”, declarou Pollon nos autos.

Decisão política

A deputada Bia Kicis também reconheceu ter indicado R$ 150 mil em recursos públicos para a mesma série mencionada por Pollon. Assim como seu colega de partido, ela ressaltou que a verba não chegou a ser utilizada.

Kicis classificou a petição de Tabata Amaral como “maldosa” por tentar vincular, sem provas, suas emendas a supostas irregularidades na produção de Dark Horse.

“Tentar fundir projetos distintos apenas por envolverem a mesma produtora ou temas conservadores representa um erro jurídico e metodológico severo”, argumentou a parlamentar.

A deputada negou veementemente a acusação de que teria ajudado a custear um filme sobre Jair Bolsonaro com dinheiro do erário.

“Independentemente da tentativa de criminalizar a indicação orçamentária, é crucial que o STF avalie o valor social do projeto, que reflete o compromisso com a cultura nacional”, afirmou Kicis. Ela admitiu que a emenda foi uma “decisão política” pautada no potencial de gerar valor para a educação e a economia criativa. A Advocacia da Câmara dos Deputados, após consulta de Flávio Dino, informou não ter encontrado irregularidades processuais nas emendas de Mário Frias citadas no caso.

Master

Nesta quarta-feira (13), uma nova reportagem do The Intercept Brasil indicou que o senador Flávio Bolsonaro teria solicitado cerca de R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse. Desse montante, Vorcaro teria liberado em torno de R$ 61 milhões.

Áudios obtidos mostram que o senador e o banqueiro discutiram aportes financeiros pouco antes de Vorcaro ser detido na Operação Compliance Zero. A investigação, iniciada em novembro de 2025, apura crimes financeiros e fraudes envolvendo os bancos Master e de Brasília (BRB).

Em uma das gravações, Flávio destaca a relevância da obra e a necessidade de verbas para quitar pagamentos atrasados.

“Embora você tenha nos dado abertura para cobrar, fico sem jeito. Mas o filme está em um momento crucial e, com tantas parcelas pendentes, o clima é de tensão. Me preocupa que o resultado seja o oposto do que planejamos”, diz o senador no áudio.

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Superprodução

Mário Frias, que atua como roteirista e produtor executivo do longa, afirmou nesta quarta-feira (13) que o senador Flávio Bolsonaro não possui qualquer vínculo societário com o filme ou com a Go Up Entertainment. Segundo Frias, a produção não utilizou recursos do Banco Master ou de Vorcaro.

“Mesmo que houvesse tal investimento, não haveria ilegalidade: é uma relação privada entre partes capazes, sem um centavo de dinheiro público. Além disso, na época, não pesavam suspeitas sobre o banco”, defendeu Frias.

O parlamentar ocupou o cargo de secretário especial de Cultura entre 2020 e 2022, durante o governo Bolsonaro.

Na mesma nota, Frias justificou o orçamento elevado da obra, que supera os R$ 45 milhões de Ainda Estou Aqui, premiado em 2025. Segundo ele, os custos se explicam pelo padrão internacional da produção.

“Dark Horse é uma superprodução de nível hollywoodiano, financiada totalmente por capital privado, com elenco e direção de renome. O projeto é real, estreará em breve e será um sucesso comercial para os investidores”, concluiu o deputado.

FONTE/CRÉDITOS: Alex Rodrigues - Repórter da Agência Brasil