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Na Baixada Santista, em 14 de maio de 2006, Débora Maria da Silva celebrava o Dia das Mães com seus três filhos. A alegria da data, que se somava ao seu aniversário recente, foi abruptamente interrompida no dia seguinte. Seu filho mais velho, o gari Edson Rogério Silva dos Santos, de 29 anos, foi brutalmente assassinado.
Naquele período, há 20 anos, São Paulo vivenciava um dos capítulos mais sombrios de sua história. Entre os dias 12 e 21 de maio, ataques orquestrados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e uma violenta resposta de forças policiais e grupos de extermínio resultaram na morte de mais de 500 pessoas. Os eventos ficaram conhecidos como os Crimes de Maio, e Edson Rogério foi uma das vítimas. A maioria dos mortos era jovem, negra e residente em áreas periféricas, assim como ele.
“Eu sempre gostei mais de comemorar o Dia das Mães do que o meu aniversário. Em 2006, meu aniversário foi numa quarta-feira, dia da cirurgia dele para remover o dente siso”, recorda Débora.
A comemoração familiar ocorreu no domingo com bolo e churrasco. Foi a última vez que Débora ouviu o filho cantar parabéns para ela. “Ele disse que ia embora porque precisava trabalhar cedo no dia seguinte. Me deu um beijo e partiu. Só o vi depois dentro do caixão”, relata a mãe com a voz embargada.
O assassinato de Edson Rogério aconteceu no dia seguinte à celebração, enquanto ele parava para abastecer sua moto em um posto. Um jovem que testemunhou parte do ocorrido relatou a Débora: “Acabou a gasolina da moto dele e ele pediu socorro para mim. Desci o morro para ajudá-lo, mas ao chegar no posto, vi duas viaturas abordando ele. Fiquei observando de longe.”
“Após a abordagem, os policiais deixaram o posto e subiram o morro, esperando meu filho lá em cima. O mataram encostado em um muro, e ele caiu sobre pedras de contenção”, descreve a mãe, com a dor ainda viva.
Naquela segunda-feira, após o Dia das Mães, Edson Rogério morreu com cinco disparos. Débora sentiu cada tiro como se fosse seu. “Um tiro em cada pulmão, um no coração e dois nos glúteos. Meu filho teve morte instantânea. Senti todos os cinco tiros. Mas o do coração foi o que mais doeu e ainda dói. Foi o fatal”, relembra.
Vinte anos depois, o aniversário de Débora volta a cair no mesmo domingo do Dia das Mães. Uma data que para ela perdeu todo o sentido de celebração.
“Não há mais o que comemorar. O Estado me tirou isso de forma cruel. Não consigo mais celebrar o Dia das Mães, nem o meu aniversário, que antes coincidia com essa data. Não perdi apenas o Rogério, perdi minha família”, desabafa.
Memória e luta por justiça
Neste ano, Débora reviveu a dor de 20 anos atrás. Ao organizar fotos do filho para um acervo que será destinado à Unicamp e ao conceder entrevistas, ela chora novamente. “Estou muito deprimida. São 20 anos e o crime do meu filho pode prescrever. É Dia das Mães, meu aniversário, e minha mente está perturbada. Tento manter minha saúde mental para seguir em frente.”
Pouco tempo após a morte do filho, Débora foi uma das fundadoras do movimento Mães de Maio. A organização, composta por mães, familiares e amigos de vítimas da violência estatal, tornou-se um símbolo na busca por justiça, memória e no combate à violência do Estado.
“Maio de 2006 é uma história que narramos como mães porque nossos filhos foram tratados como suspeitos. Ninguém merece uma dor assim. O movimento tem sido um porto seguro, acolhendo até mesmo mães de policiais, o que demonstra que nossa dor transcende qualquer instituição”, afirma Débora.
Os anos passaram, mas a luta por justiça do movimento Mães de Maio continua. Recentemente, a organização, em parceria com a Conectas Direitos Humanos, enviou um apelo urgente à Organização das Nações Unidas (ONU), denunciando a inércia do Estado brasileiro diante dos Crimes de Maio.
“Nenhuma dessas execuções foi devidamente investigada, nenhum agente estatal foi responsabilizado e as famílias das vítimas não receberam qualquer reparação”, apontam as entidades no documento.
Na visão de Débora, Edson Rogério foi vítima de uma violência estatal que se manifestou não apenas pela execução direta, mas também pela omissão. “Não foram os criminosos que mataram nossos filhos. Foi o crime organizado, que representa o terrorismo de Estado. Foi uma retaliação, e nossos filhos acabaram pagando por uma guerra que não era deles”, conclui. “As mães também morrem, metaforicamente, quando não aceitam a impunidade do Estado. A impunidade é o que mais nos mata, além da perda dos nossos filhos.”
Para Débora, e para inúmeras outras mães que sofreram perdas por violência policial, essas mortes não podem ser esquecidas nem toleradas, sob o risco de se repetirem.
“Não podemos normalizar essas mortes, especialmente as cometidas pela polícia. O massacre de maio é um ciclo que se perpetua, e vemos isso claramente hoje. Nossos filhos morreram como suspeitos, mas nós provamos que eles tinham nome, sobrenome e endereço”, desabafa Débora.
“Atualmente, presenciamos crimes com o mesmo modus operandi. Sinto vergonha, mas precisei consolar diversas mães pelo Brasil. Despertei essas mães para que não temam denunciar a violência policial e para que saibam que seus filhos importam, mesmo após a morte.”
Duas décadas após o massacre, as mães mantêm a esperança e a luta por um país com mais memória, justiça e menos violência.
“Queremos continuar vivas para dar à luz a um novo Brasil, a uma nova sociedade. Nós demos à luz a seres humanos, não a suspeitos. Quem nos rotula como suspeitos é o crime organizado, que é esse Estado tão aparelhado. Isso é uma herança desde a ditadura militar.”
A trajetória de Débora e de outras mães que perderam seus filhos nos Crimes de Maio será tema do programa Caminhos da Reportagem, com o episódio “Crimes de Maio, 20 anos sem Respostas”. A exibição ocorrerá nesta segunda-feira (11), a partir das 23h, na TV Brasil.
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